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Tuesday, October 31, 2006

Maria, 3 filhos, meia idade, faxineira, favelada.

O amor tem várias formas
Cores, sabores, tamanhos, vestes, sons, nuances
Pode ser bom, ruim, não ser nem bom, nem ruim
Amor pode ser só amor
Amor pode gerar sentimentos inexplicáveis
Isso é o amor.
Tem várias formas de amor.
Não sei se são as várias formas que se parecem ou
Se é o próprio amor a mesma coisa sob formas diferentes
Tão versátil e tão auto-suficiente que mimetiza todas elas
Tão auto-suficiente que não deixa ninguém defini-lo
O amor teima em se mostrar indefinível
Amor teima
Quem ama teima porque o amor é teimoso
Amor é união?
Amor é apego?
União química, combustão?
Mas se for combustão, não acho que seja o fogo.
É só a combustão.
Mas amor é o momento?
Amor ocupa lugar no espaço?
E se não ocupa, existe?
Teimosamente tenta - se definir o indefinível
Tenta se porque algo de estranho afeta a todos nós de uma forma semelhante
Cumplicidade do ser humano.
Somos cúmplices das formas diversas de se sentir estranho
Afetado, inseguro, incapaz, perdido, doente, cabisbaixo, anoréxico
Somos todos vítimas da reação química
Química orgânica, Bioquímica
Decepção, pois se é química, o amor não tem lirismo
Se é química, não é arte, não tem essa beleza
Mas e o lirismo que nos faz senti-lo?
Se não é tão belo por natureza, porque é instigante?
A ciência é instigante
O amor é ciência?
Não.
Amor não passa de teimosia, não passa de um evento súbito-permanente-atemporal
Ele é auto-suficiente, é egoísta, existe por si só
É multifacetado justamente porque é teimoso e egoísta, justamente porque é insaciável
Assume todas as formas que forem possíveis
É tão orgulhoso e egoísta que convence todos e vence qualquer licitação
Não mede esforços
Amor é uma entidade
Quase uma instituição
A mais bem sucedida de todas
A mãe de todas as religiões
Mas religião não é amor.
Amor não tem teoria,
Não tem bula.
Não se ensina e não se aprende.
Amor existe, mas ninguém viu.
É fato consumado
A única definição do amor é:
O amor é feminista, auto suficiente, moderno, manipulador
Não precisa de ninguém pra ser feliz, nem pra chorar.
É besteira, amor não chora, nem sorri.
Amor não tem rosto.
Só brilha, pulsa, vibra ...
Amor não tem nome?
Não tem idade?
Não tem padrão?
É tudo.
É complexo.
Engana.

Apaga tudo.
Eu estou errado.

Pensando bem, amor é mulher saiu pra trabalhar e deixou as crianças com o marido.
To quase chegando na conclusão de que o amor se chama Maria.
Tem 3 filhos, meia idade, faxineira, favelada.
Filho mais velho traficante, morreu pela polícia.
Agora é líder comunitária e fundou uma ó-ene-gê.
Adotou mais 3.
Ela trabalha o dia todo, lava, passa e faz comida pras crianças.
Bota o mais novo pra dormir e é sempre a última a pregar o olho.
Chora no banho para não ficar inchada. Não menstrua. Tem problema no joelho.
O marido morreu quando o mais novo ainda estava no ventre.
Cria as crianças sozinha.
Se amor não for Maria,
Então não sei mais nada.
É incondicional.
Amor também poderia ser homem e se chamar Hilário.
Empresário, atarefado, pai e viúvo.
Liderar um grupo de executivos, mas não se atrasar pra buscar a Mariana na escola.
Convencer a menina a comer moranga, ficar quieto, mas morrer de ciúme do Paulo,
adolescente, que invade a história em meados do ensino médio e não sai do quarto dela.

Tá, então fica combinado, o amor pode ser tipo isso...
E todo resto é Paixão.


O poemeto acima foi escrito por mim em meados de 2002, publicado em 31 de Outubro de 2006.

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