O Mapa
Minha história não inicia aqui. O começo não existe, não sei ao certo quando a bola de neve se formou. Não sei ao certo definir o início das coisas, pois sempre é possível achar um foco anterior, e assim vai. Cada vez mais cedo, cada vez mais precoce. Eu perderia muito tempo para definir o dia, a hora e o local.
Só sei que foi assim, éramos felizes e não sabíamos. Hoje são pessoas espalhadas por aí. Cada um em um canto. Não necessariamente no espaço, mas cada um no seu canto. Cada um isolado em si mesmo. Mas é a ordem natural das coisas, não adianta reclamar.
Eu quis dizer, isolado, egoisticamente. Cada um pensando no seu umbigo. Eu não deveria me apavorar por isso porque o ser humano por natureza é assim, e me é difícil acreditar em pessoas altruístas. Prefiro antes de acreditar em altruísmo, curtir os momentos de amizade e não diferenciar sinceridades.
Enfim, deu para perceber a situação inicial. Tive uma idéia para situar as pessoas no texto, basta desenhar um mapa na cabeça de cada um. Imagine você um mapa, mas não de papel. Um mapa virtual, animado. Tipo GPS. Você no caso, seria um pontinho brilhante nesse mapa, as demais pessoas outros diferentes pontos. Cada um de uma cor. Pois bem, sabe o tal do “Google Earth”, o mapa seria mais ou menos isso. À medida que o tempo ia passando, os pontos movendo se no espaço e assim deixando rastros, como se fossem linhas. No caso, linhas do tempo.
Essas linhas iriam seguir toda história do indivíduo em questão. Todo enredo estaria descentralizado, espalhado pelo mapa. Você com um click teria a condição de aproximar se do ponto luminoso colorido, qualquer um, e assim ter mais detalhes da história daquele ali. Esse é o cenário.
Cada personalidade teria uma cor.
O João, é o personagem amarelo. À medida que o tempo passa, ele vai andando no mapa. Tu consegue imaginar o emaranhado causado pela linha continua deixada por João? Imagine você se eu adicionar na mesma imagem mais dois pontos, quatro, e assim em progressão geométrica, milhões. Impossível descrever a imagem formada pelo cruzamento dessas linhas. Impossível prever, impossível definir. Teoria do caos. Um emaranhado. E imagine você que cada uma daquelas linhas era uma história de vida.
Linhas cruzadas representam encontro, linhas paralelas desencontro. A linha amarela sobre a linha vermelha é quando João encontra Maria, a dona da cor vermelha. A linha amarela sobre a linha amarela é interessante. É quando o João revive uma experiência passada. Imagina agora como descrever um casal. Se eles estão andando juntos traçam linhas sobrepostas? Se eu seguir a teoria de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, não, não estariam sobrepostas, mas também não seriam paralelas, pois como eu já disse linhas paralelas representam desencontros. Como resolver esse problema físico? Poderiam duas linhas formar uma linha só? (aqui um exemplo da filosofia se materializando). Poderiam duas linhas formar uma só? Mas não uma linha vermelha ou amarela, isso seria excluir um dos indivíduos do mapa, subjugar uma das personalidades, pois eu havia dito que a cor era a personalidade de cada um. Mas como então estariam juntos andando pelo mapa, sem serem representados como linhas paralelas? Poderíamos estabelecer que um casal unido formaria uma outra forma geométrica, que não mais um ponto; e a linha por eles descrita seria união das duas cores, das duas personalidades.
E quando o casal decidisse seguir caminhos diferentes? (prefiro esquecer as separações diárias por motivos profissionais e do dia a dia). Refiro-me a separações conjugais propriamente ditas. Briga, desquite, advogado-envolvido. Bem, daí a linha formada outrora por eles estaria extinta? Agora imagina se o casal tivesse um filho. O rebento necessariamente teve um dia de criação. Deveríamos marcar o dia da união. O mapa estaria marcado pela simbologia, a mistura, a miscigenação das cores vermelha e amarela, o laranja.
Eles formariam não mais um indivíduo, mas um grupo, uma família. Triangular. Não mais um ponto, um triângulo. A linha traçada por eles seria laranja. O filho assumiria a cor da família, sem possuir ainda sua individualidade, ou seja, não apareceria no mapa como uma forma geométrica isolada.
Bem, no dia do nascimento surge uma personalidade a mais na história, porém essa sem individualidade, sem forma geométrica pontual. Essa seria gerenciada pelo conjunto laranja. Imagina daí quando ocorresse a separação dos gerenciadores do conjunto laranja. Se Maria voltasse a ser vermelho e João voltasse a ser um ponto amarelo e voltasse a descrever uma linha amarela. O pequeno criado entre João e Maria estaria obrigado a tornar se um indivíduo, com personalidade solitariamente isolada, tornar se ia então um ponto. O ponto laranja, José.
Então ele passaria a descrever uma linha própria. E o ponto laranja seria mais um no mapa, congestionando ainda mais o emaranhado de linhas. O microcosmo, amarelo, vermelho e laranja, a essa altura do campeonato já percorreu léguas no nosso mapa e já formou diferentes formas geométricas desenhadas por suas linhas. Imagine agora se colocassemos as relações pessoais de José no mapa. Somadas as novas relações de João e as novas relações de Maria. Não dá para imaginar, imagine você agora se colocássemos mais pessoas, uma população inteira. Seria uma conurbação de ligações entre os pontos, cruzamentos e desencontros. Imagine você o quão complexo seria isso.
Mas e se os pais não se desunissem? Como o rebento deixaria o conjunto para ter individualidade?
Simples, se o conjunto for adentrado por outro ponto qualquer, ou individuo (pensemos em um indivíduo do sexo oposto ao da cria do conjunto em questão), este ponto exótico, não seria capaz de adquirir e assumir a cor da família. Nunca um gatinha da cor verde de 23 aninhos, independente, que deixou o seu conjunto verde há alguns meses, morando sozinha, gozando da liberdade adquirida pela revolução feminista. Revolução da geração anterior a sua. Revolução que libertou os pontos femininos, deixando os descreverem linhas cada vez mais á vontade no nosso mapa. Pois bem, jamais essa fêmea iria se subjugar ao conjunto de outrens. Nunca. Está feita a desunião do conjunto laranja.
O outrora rebento, sem pêlos pubianos, sem individualidade, agora garanhão safado, está jogado as traças. Solto no mundo. Agora é mais um. Sem proteção. É portanto um ponto. Sem entrarmos na questão e nos méritos da formação ou não do conjunto “verde mais laranja”, pois a geração dessas criaturas já não mais pensa em formar conjuntos. Se formassem conjunto repetiriam as histórias anteriores. Nada os impede de repeti-las, porém, aqui proponho pensar no caso de não união. É a base das relações modernas.
Pois bem, sem pensar na hipótese de união, pensa-se em indivíduos interagindo somente como se fossem linhas únicas. Linhas se cruzando. São breves encontros. Cruzamentos sem união, e as linhas representando no mapa o desenho dessa nova geração e suas relações fugazes. Os pontos não se uniriam facilmente, somente as linhas, mostrando assim a volatilidade, a superficialidade da relação, pois as individualidades, personalidades e vontades não seriam modificadas pela influência de um ponto ou de outro.
Até então nossas linhas do tempo, os rastros de cada ponto, estariam formando desenhos, aleatoriamente. Dá para imaginar o quão infinitas são as possibilidades artísticas desse mapa?
O final nem da Vinci seria capaz de pintar. Não é possível avaliar a beleza do fato em questão, mas sua complexidade, e a admirável capacidade de mobilidade e mutação, isso sim, isso dá para avaliar como inigualável e inesgotável. Porém fica o inexorável paradigma da vida. De um lado, mais particular, a superficialidade evolutiva, isoladora e “em si mesmada” e dependendo do enfoque, um tanto desoladora . De outro lado, mais distanciado, a geometria, colorida, mutante, difundida, rica e atraente. Os lados representados no nosso mapa pelo teu click (zoom) e pela aproximação ou distanciamento de um determinado ponto.
Isso tudo mimetiza a vida como ela é. Admiravelmente cheia de possibilidades. Hora agradáveis, hora nem tanto. Mas possibilidades infinitas e indiscutivelmente inovadoras. Impossíveis de serem reproduzidas.
Portanto, quando dificuldades aparecerem na sua existência, lembre-se que isso é a vida. Quando faltar o fôlego, diminua a pressão intratorácica e inspire (se não sabes fazer, relaxa, é uma ação involuntária, teu organismo faz pra ti, deixa estar), lembre-se e anime-se por fazer parte dessa obra de alta complexidade e inacabada, porém maravilhosa que é a vida. E relaxe, você não é o centro das atenções, tudo que dificulta a sua existência dificulta igualmente a existência de milhares de outros pontos no mapa.
Curta os caminhos, independente da direção, origem ou destino. Saboreie os cruzamentos e reflita os desencontros. Isso é viver.
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