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Sunday, November 19, 2006

Um Conto real

Uma Estória

Eu não sou uma pessoa totalmente cética, apenas custo a acreditar naquilo que não consigo ver. Talvez deva ter preocupação com o fato de me tornar um velho ranzinza. Cada dia que passa me dou conta de que é preciso ter o dom de acreditar naquilo que não parece verdade. Não tanto porque deixaria de acreditar em uma fato verídico por pura vaidade, mas para evitar a fadiga. Evitar constrangimentos, evitar a solidão de um ateu inveterado.

Algumas estórias extraordinárias já me aconteceram. Eu mesmo as vivi e não acredito em mim mesmo. Loucura. Quando tenho sono eu sou imaginativo. A maioria das pessoas é. Imagens que não são imagens, mas sonhos vívidos; sons que não são sons, mas alucinações sonoras. Enfim, inúmeras explicações para refutar uma experiência paranormal.

Bah, na verdade é triste ter que admitir que não acredito em Deus. É triste.

Certa vez, estava de plantão no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre e no meio da madrugada depois de alguns minutos de sossego e tranqüilidade da equipe, começa o movimento. Escoriações, lesões corto-contusas, traumas em geral. Correria. Muito sangue. Muita agilidade das equipes. Frieza. Pois é preciso raciocínio rápido. E em meio a tudo isso, sentimentos velados. É estranho acostumar se com a dor dos outros, acostumar se com a morte, com a mutilação. Muito estranho, mas acontece. Muitos dos profissionais dessa área ficam frios e calculistas. São baixas diárias de uma guerra urbana, invisíveis à grande maioria da população. Mortes bizarras e a maioria violenta. Estatísticas negativas de uma cidade grande. Na Emergência de um hospital do porte do HPS, é possível ver coisas inacreditáveis. Passar uma noite de plantão é viver o que de pior acontece na cidade. É fazer parte das páginas policiais. E o pior é que vamos nos acostumando de tal forma, que já não mais nos perturbamos com qualquer morte, com qualquer mutilação. Se não for notícia, muitas vezes não choca. Ignora se a perda. É duro ter que admitir isso. Mas é a verdade.

Tento evitar a perda dos meus sentimentos mais humanos e calorosos. Mas eles vão se apagando, à medida que os números vão se somando. À medida que a experiência no trauma vai ficando maior.
O ser humano tem, por natureza, curiosidade por tudo aquilo que não é comum. Por mais estranho e repugnante que o evento pareça ser, muitas vezes olhamos, impulsivamente, sem controle. A curiosidade move o olhar. Mas à medida que o olhos se acostumam com o que vêem o impulso esquece de nos guiar, a curiosidade some.

Não sei mais o número de membros mutilados que ajudei a costurar. Nem muito menos o número de rostos desfigurados, crises asmáticas, vômitos em jato, Infartos Agudos do Miocárdio, traumas automobilísticos graves. Eu não tenho nem um ano de plantão na bagagem e já posso dizer isso. É a realidade de um plantonista. As mortes acontecem uma a trás da outra. Normal, somos frágeis. Mas é duro ver uma garota de 20 anos morta por bala perdida, um pai chorando compulsivamente, uma mãe em choque. É duro ver pessoas comuns, civis, sendo alvo de marginais. E muitas vezes esses marginais saindo ilesos. É muito duro. Mas não há o que fazer. Se meu papel é trabalhar para ajudar os que ainda restam, não posso perder tempo refletindo sobre isso. É a simples rapidez e repetição dos acontecimentos que nos enrijece.

Eu tinha dito que estava de plantão, certa vez, certa noite ... Voltando então a esse início de estória, inicio a narrativa de um episódio estranho e perturbador. Na verdade não estranho pois é o que eu esperava.

Um homem de 26 anos, chega à emergência. Atropelamento, cinemática do trauma de alta velocidade, energia cinética transformada em lesões gravíssimas. Pois bem, era um rapaz trazido pelo SAMU, serviço de atendimento pré-hospitalar, chegando a nós desacordado, com fortes indícios de sangramento intra-abdominal, certamente com trauma encefálico importante. Caso grave. Sala de politraumatizados. Equipe rapidamente se coloca a postos. Iniciam se os trabalhos de avaliação da gravidade das lesões.

Vias aéreas obstruídas, saturação de oxigênio no sangue caindo, abdome em tábua, paciente desacordado, não responsivo. Entubação orotraqueal realizada rapidamente. Eu então sou convocado pelo médico de sala para ventilar o paciente enquanto ele realiza outras manobras. Instala se a monitoração cardíaca. O coração do paciente pára. Parada em assistolia, ou seja, não há contração alguma, não há impulso. Não adianta realizar a desfibrilação através do choque. A solução é massagear. O paciente provavelmente sangrava absurdamente devido às lesões intra-abdominais e torácicas. Entrou em choque hipovolêmico. Correria na sala. A última alternativa seria abrir o tórax ali mesmo, em plena sala de politraumatizados. Foi feito. Coração exposto. Sem pulso. Vazio. Mesmo após 4 unidades de cristalóide. Era um quadro praticamente irreversível. Continuamos a massagem cardíaca direta e injeções de adrenalina. De repente o coração esboçou uma fibrilação. Esboçou uma volta de atividade elétrica. Era um pedaço de esperança para a equipe. Continuamos a massagem. Eu fui então designado para a tarefa. Pela primeira vez eu presenciava a cena e pela primeira vez sentia o calor de um coração humano pulsando entre minhas mãos. Na hora sem pensar assumi meu posto, enquanto o médico de sala acionava o pessoal da cirurgia. Iríamos levar o paciente para o bloco cirúrgico. Ele incrivelmente havia ressuscitado. Mesmo que em condições pobres, sinais vitais fraquíssimos, mas estava presente ali. Era um ser animado ainda. Ainda restavam esperanças. Continuei a massagem pelos corredores do hospital e elevador. Sem pensar. Eu não lembro ao certo se eu pensava alguma coisa se não o que eu deveria fazer. Nada de questionamentos, nada de sentimentos, nada. Somente ação, rápida. Adentramos a sala de cirurgia. Paciente na mesa, pessoal preparado. Iniciamos a laparotomia. Abdome aberto, enorme quantidade de sangue expulso pela pressão intra-abdominal. Sangue que faltava na circulação e sobrava nas nossas roupas, calçados, etc. Eu continuava focado na minha tarefa. Entrei de primeiro auxiliar (fato importante para um mero quartoanista). Estava vidrado na minha função. Abria caminho para o cirurgião, enquanto ele tentava reparar os danos que haviam feito o paciente afundar em tamanho sangramento. O fígado não era mais fígado, mas uma massa disforme. Perdi a conta de quantas unidades de líquido foram dadas ao paciente. Ele havia perdido uma volemia e meia. A essa altura eu comecei a sentir meus pés úmidos mas não dei atenção. O cirurgião me designou para ligar alguns vasos sangrantes. Nunca havia feito. Mas não pensei duas vezes. Então designou me para assegurar se o coração continuava com um enchimento adequado. Palpei o coração e o senti esvaziado. Batimentos raros e fracos. Ele estava prestes a parar novamente. O anestesista me perguntou então como estava o enchimento. Dei meu veredicto. Nesse momento senti o peso. Nunca havia segurado um coração com as mão, não tinha noção do que estava falando. Apenas agi com o meu senso de percepção. Pois bem, o paciente parou novamente, mas desta vez fibrilando. Era o caso de desfibrilar.

O cirurgião então pediu que todos se afastassem. Na contagem do três vinha o choque. Na primeira tentativa, nenhum resultado. Na segunda também não. Nesse momento, percebi que eu estava orando. Mas eu não costumo rezar. Eu nem sequer sabia rezar. Eu nem sequer acreditava no que estava pensando. Rezei. Pedi a presença e a força de Deus. Pedi para ajudar nos, pedi e lembro me bem do pedido martelando minha cabeça: “Se o senhor existe por favor essa é a hora de me dar uma demonstração!!”. O cirurgião iniciou a contagem e realizou o choque mais três vezes. Não surtiu efeito.

A partir desse momento muitas coisas passaram na minha cabeça. Uma decepção enorme. Quase uma revolta. Ao contrário da rotineira agitação da equipe, um silêncio tomou conta da sala. O cirurgião deu dois passos para trás e retirou as luvas. Retirou o avental e pediu amostra de sangue para o departamento de criminalística. Sem esboçar mais reações me pediu para que eu me virasse para fechar o que ele havia aberto.

Fiquei na sala longos minutos. Eu, e uma técnica de enfermagem. Silêncio violador. Eu estava amortecido. Deus não havia me provado sua existência, mas mesmo assim eu não estava com raiva. Eu já esperava.

Nunca havia passado por uma experiência tão intensa na minha vida. Nunca havia sentindo tão intensamente uma morte. Não falo em emoção. Falo de energia. Eu havia presenciado, assim como todos na sala, um evento que não era dos mais comuns naquele serviço. Eu tinha a certeza que todos ali haviam sentido o mesmo que eu, inclusive o mais experiente de todos. Não sei ao certo explicar o que é essa energia que eu senti, essa sensação. Não sei exemplificar nem comparar. Fica ao encargo de cada um entender e imaginar.

Foi forte, intenso e perturbador. Sai da sala de cirurgia após fechar o cadáver. Pontos contínuos. Para quem me viu trabalhando naquela sutura, era a imagem da decepção. Me afastei, tirei as luvas e percebi que estava com os sapatos, as meias e as cuecas manchadas. Eu havia me lavado em sangue. Tudo me fez parar e refletir: contra quem nós lutávamos? Contra que força? É muito intensa essa força, mas não sei de onde vem. Reparei minha tristeza, respirei fundo e fui para o vestiário. Tomei um banho. Sentei no vaso sanitário e permaneci uns dez minutos pensativo. Respirei novamente e voltei a minha função de ‘interno’ da sala de sutura. Resolvi suprimir os questionamentos e sentimentos que me poluíam a cabeça. Esfriei, relaxei e amadureci. Foi difícil perceber que estava sendo mais um a adquirir o distanciamento, o bloqueio da emoção. Endurecimento.
Voltei a sala de sutura e exerci minha função até o final do plantão. Sem mais emoções.

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