Escolhi o lado direito da pista, andei por duzentos metros. Eu não sabia, mas estava saindo do meu curso. De onde estava percebia ao longe um semáforo. Estava adentrando no perímetro urbano, mas a sensação era de que estava perdido. Além da luz piscante, amarela, de um semáforo fora de serviço, também avistava um travesti de peitos siliconados rodando uma microbolsa verde limão com detalhes em prata. Lembrei me de um amigo, que há muitos anos, dizia que esses travestis eram as mulheres mais gostosas que ele já havia visto. O teor “polemigênico” deste comentário não me interessa no momento. Mas em suma, eu transitava em uma região inóspita. Prostituição era o que de mais leve se processava naquelas sarjetas. Não me passava pela cabeça o perigo que corria. Seguia atento no volante, escutando uma compilação de old music que ia de Jimi Hendrix a Zé do Bêlo, tomava um café adoçado com aspartame e degustava um saco de bolachas com zero de gorduras trans. Dobrei a esquerda logo após o semáforo. Agora trafegava em uma avenida enorme, com um grande canteiro no centro e postes com luzes queimadas. Grandes tonéis cilíndricos, serviam como fontes de luz naquela noite fria, fumacenta e sem luar. Olhei no relógio de pulso, 15:00. Era possível avistar alguns moradores de rua brigando por um espaço ao redor do fogo. Junto a eles montes de sacos de lixo revirados por catadores e alguns cachorros, disputando o acesso a comida podre. Logo chamei atenção daquele povo. Logo meu habitáculo estava cercado de indigentes. Apatir de então ficou difícil seguir em frente. Eu não entendia o que falavam, não era português, era algo parecido, mas não se entendia. Era uma língua esfarrapada, filha bastarda do português. Eles me irritavam cada vez que tocavam no meu carro com aquelas mãos sujas, cada vez que se se encostavam nos vidros com aqueles rostos enegrecidos de sujeira e secreção endurecida sob a barba. Arranhavam a pintura metálica que eu acabara de ressaltar com uma camada de cera. Quase utilizei minha pistola automática. Mas ainda me restou um pouco de humanismo e benevolência. Poupei aquelas vidas miseráveis.
Depois de vencer a resistência daquela massa humana, continuei em frente. Meu conversível blindado era ágil no meio daqueles corpos pegajosos. Do meu carro observava aquele submundo, que um dia fora o mundo real. Montes de lixo. Animais e humanos juntos, competindo. Logo voltei a me deparar com novo assédio ao meu veículo. Ofereciam me produtos baratos. Coca, ecstasy, e o que você puder lembrar e colocar nessa lista de entorpecentes. Até ali não enfrentava resistência armada. Mas a má educação daqueles maltrapilhos me irritava.
Passei a andar com minha pistola automática entre as pernas. Não tardou e tive que utilizá-la. Abati uma unidade. Percebi ele na espreita, esperando meu vacilo. Só que o meliante vacilou antes. Um corpo caído ao chão. Não me tocou nem um pouco. Logo depois abati mais dois. Assim segui em frente. Avistei então outro semáforo, também fora de serviço. Aquela luz piscante só me deixava mais impaciente. Eu ainda pagava impostos, mas o perímetro urbano continuava tomado daquela gente e continuava uma anarquia. Tudo compatível com a minha antiga crença de que todo e qualquer lugar que restasse sob domínio do governo estaria fadado àquela realidade. Para não dizer guerra civil. Passei o semáforo e a única coisa que via nas calçadas era o lixo entulhado. Lixo e mais lixo, onde anos atrás costumavam ser calçadas e onde costumavam transitar pessoas de verdade, limpas educadas e com dinheiro. Em volta do lixo somente aquela gente pobre, fedorenta e mal vestida. Passavam frio, por esse motivo não paravam quietos. Sempre que ouviam o som do motor do meu carro corriam para me pedir alguma coisa. Não me saia da cabeça a vontade de eliminar com uma bomba de hidrogênio toda aquela gente. Eu aprendera no colégio as varias formas rápidas e baratas de genocídio. Mas o governo não mostrava para onde iam nossos impostos. E aqueles sujismundos continuavam ali atrapalhando meu caminho. Atropelei um ou dois, mas segui em frente, só me preocupei com o fundo do meu carro que poderia sair danificado.
Ainda bem que meus filhos não haviam acompanhado me nessa viagem para além do perímetro urbano. Estavam a salvos de ver aquelas podridões. Aquela realidade. Segui em frente.
Mais um semáforo piscante e eu cada vez mais enfurecido. A lataria do meu carro era pura baba, merda e secreção humana. Gente imunda, seres imprestáveis. Eu só procurava uma placa de trânsito para voltar a estrada de acesso à cidade. Continuei em frente. Logo avistei uma grande placa caída no meio da via. Dava para perceber que se tratava de uma antiga placa de um shopping center da região desativado há anos. Dos tempos em que existiam estabelecimentos comerciais abertos ao público em geral, nos quais não era preciso ser sócio e nem comprovar renda para circular. Meu avô costumava falar daquele shopping e dos dias de aniversário em que seu pai o levava para comprar presentes e brincar no playcenter. Antigos fliperamas. Era o refúgio da classe média nos fins de semana. Dos tempos em que a classe média ainda podia consumir algo além do regime de subsistência. Dava para caminhar pelos corredores sem se preocupar com assédio de prostitutas, ou traficantes, inclusive era possível deixar os filhos por instantes sozinhos sem medo de seqüestros ou estupros. Incrivelmente ele contava que era possível utilizar os banheiros. Não havia esgoto jorrando pelos encanamentos furados, nem tão pouco os transeuntes urinavam nas pias ou defecavam no chão. Ainda não havia moradores lá dentro.
Alguém havia carregado a placa do prédio para formar uma barricada. Logo avistei mais dejetos no meio da pista. Pneus, restos de carros e animais mortos. Fogo. Não daria para eu continuar naquela direção. Engatei a marcha ré sem olhar para trás. Senti um tranco, como se estivesse atropelando algo, e estava. Para meu espanto, um grupo de pessoas surgiu correndo em direção ao meu carro. Portavam objetos nas mãos. Cercaram me. Tentaram atear fogo no veículo, batiam nas janelas com porretes de ferro. Prontamente acionei meu seguro e liguei o sistema de proteção do habitáculo. Dava para ver os mais assanhados voando cerca de 10 metros de distância com cada descarga elétrica. Já caiam duros e fritos. Não tardou, chegou o resgate. Varrendo o que havia restado dos arruaceiros. Somente os mais ágeis escaparam. Eu pago o seguro obrigatório exigido pelo governo, que não adianta muita coisa, mais um seguro privado caríssimo. Pago caro porque exijo eficiência. Eles são truculentos como devem ser. E como o estado deveria ser. Por essas e outras razões o estado não passa de um grupo de figurantes, homens de meia idade, endinheirados, necessitando aparecer nas colunas sociais da união dos núcleos urbanos, homens que fingem administrar o que as empresas privadas administram em seu lugar.
Passado o contratempo, fui guiado pelo pessoal da seguradora até a zona urbana. Onde após ultrapassar quilômetros de barreiras, zonas de identificação e vistorias, adentrei a cidade, onde só entra quem pode. Onde vivemos vigiados e respiramos ar puro. Onde nossas crianças correm e não imaginam o que há além do teto de refletores ultravioleta e dos bosques que nos cercam. Onde os mais jovens sequer ouviram falar em luz do sol ou do antigo efeito estufa. Onde cada homem com renda acima de 400 mil dólares anuais tem permissão para programar uma cria, a sua única. Para rendas acima de um milhão, estão permitidos até 3 filhos. Controle, a chave mestra. Pois eu achei o caminho de volta, voltei a minha bolha. Onde tudo é programado e tudo funciona. Uma redoma cara, mas tranqüila de se viver. O meu núcleo urbano.
É bom refletir sobre nossos conceitos de violência, direitos e deveres, sobre nossos valores. Quanto vale uma vida? Vale a pena qualquer coisa em troca de bem estar próprio? Onde estão nossos limites? O que fazemos pela sociedade? Será que não esperamos demais do governo? Aonde queremos chegar?
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