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Tuesday, October 30, 2007

A SORTE SEMPRE ESTEVE AO MEU LADO

Aí vai uma palhinha do 'esboço' do meu  livro. O meu primeiro romance.
A SORTE SEMPRE ESTEVE AO MEU LADO




EU, HILÁRIO.
(Porto Alegre, 10 de Outubro de 2004)

Não que eu seja um cara inteligentíssimo, superdotado, mas me considero uma pessoa inteligente. Não aquele inteligente performático que a mídia gosta ou que o povo gosta. Meu QI provavelmente é medíocre. Não tenho boa memória. Sou sim um esforçado. Mas mesmo assim me considero na medida do possível um cara diferenciado. A leitura diferencia qualquer ser que se preste a perder tempo nas letras. Diferencia o esforçado. Eu me esforço.

Não sei se é familiar, provavelmente é, mas leio bastante. Não qualquer coisa. Talvez aí entra minha sorte. Tenho a fortuna pessoal de ser um bom crítico em relação ao que leio. Seleção é importante. É fundamental. Dispersar energia vital é burrice.
Em suma, pensadores existem milhares. Pensar é gratuito. Pensar não polui. Pensar não fere ninguém. Pensadores existem milhares.

Sou bem humorado e gosto de mulher. O que também me diferencia de um intelectual performático da mídia. Reclusão não é minha praia. Mesmo tendo uma visão das coisas por vezes sarcástica e amarga, sou bem humorado. Chamo-me Hilário.
Tenho trinta e poucos anos. E com certeza já passei pelo pior da crise dessa faixa etária. Outras crises me aguardam.

Mas como eu dizia, eu adoro ler. Ler me faz ter subsídios para expressar melhor aquilo que eu penso gratuitamente 24 horas por dia. Penso até dormindo. Vê se pode. Mas é verdade. Penso demais. E leio bastante. Ler me dá bagagem para ser mais um indivíduo apto a tocar a bosta no ventilador. O Brazil precisa de caras como eu (minuto masturbação do próprio ego, desculpa.) ... Mas o Brasil precisa de uma boa merda esvoaçante. Precisamos ter nossos cabelinhos engomados sujos pela merda alheia. E eu acredito que um cara que lê boas coisas é instantaneamente designado ao pelotão de lançamento de bosta. Acho lindo tudo isso.

Não tenho orkut porque sou casado, ou melhor, ajuntado. Sabe como é né, um cara bonitão, charmoso, bem humorado e culto como eu, seria uma presa fácil às gatinhas internáuticas. Não entrei nesse convênio de azaração por medo de perder a linha. Preciso de análise por isso.
Mas preciso de análise por mais coisas. Meu hábito de fumar maconha por exemplo. Não quero ser um velho patético. Dando tapinhas nas panteras por aí. Esse hábito me dá mau hálito, me deixa cada vez mais psicótico e me deixa com medo do escuro. Explico: Escuro no quarto, patroa do lado, já viu né, não gosto de decepcionar minha gata. Tem dias que o ‘malandrinho’ resolve não se animar. Passei a ter medo do momento em que as luzes apagam e tenho que tentar uma nova ereção. Odeio fazer feio e tenho medo de ser trocado pelo Ricardão. Ricardão é o cara que contracena com a Mosinha. Mosinha é o jeito carinhoso que eu chamo minha mulher. Ela me chama de Moso. É atriz, está sempre atrás da fama e de dinheiro a qualquer custo. Minha gata se chama Herva. Culpa da mãe dela, uma ex-hippie, hoje arrependida da façanha de presentear a filha com um nome desses.

Bem, voltando ao assunto, preciso de análise também porque eu sou ninfomaníaco. Esse na verdade é o motivo pelo qual não entro no orkut. Seria mais um pervertido dando em cima das mocinhas que piscam para mim com seus recadinhos de bom fim de semana. Aí sim meu casamento iria por água a baixo. Sites de relacionamento não são para homens casados, ninfomaníacos e psicóticos em geral.

Como eu disse, me chamo Hilário. Minha avó contou que minha saudosa mãe me dera esse nome exótico como forma de homenagear um cara que trabalhava para o meu avô há muitos anos. Era um bom homem. Levava minha querida mãe para escola todos os dias. De lambreta. Era tão inculto quanto O Luis Inácio, aquele presidente da república, mas era bem humorado, espirituoso e bom coração. Características também comuns ao presidente. Mas ele tinha vinte dedos, não tinha língua presa e não era tão cara de pau. Enfim, o seu Hilário era boa praça e competente. Minha avó conta que minha doce mãe nunca chegara atrasada na escola. O seu Hilário era pontual. Meu chefe já fez a ameaça, caso eu me atrase mais um dia sequer posso procurar um advogado. Herdei um nome de um cara legal.

Por falar em chefe, ele ou ela, como você quiser, se chama Roberto. Na certidão, Marilice. É casado e mora com a mulher. Não tem filhos porque a justiça ainda não permitiu a adoção. Ela ou ele, é o que há de autoritário. Trabalho em uma repartição privada. Isso durante o dia. À noite faço trabalhos especiais. Sou movie maker e webmaster. O que não me dá muito dinheiro. Pornografia é um ramo concorrido. Meu sonho é um dia viver da minha obra.

Mas voltando a Marilice/Roberto, ela me tira o couro. Sou boy, motoboy. O mais veloz da praça. O problema é que eu esqueço alguns endereços e perco algumas contas. Mas é a maconha. Não tenho culpa. Que culpa tenho eu se sinto sede exagerada e paro para tomar uma cangebrina no bar entre uma entrega e outra? Que culpa tenho eu, se tem alguns punheteirinhos esquizóides cronometrando seus tempos. Que culpa tenho eu se esses diminuem as médias de tempo? Que culpa tenho eu? Não sou o retardado, mas sim eles que são ejaculadores precoces. E eles não fumam maconha. O fato é que eu preciso desse emprego. Já tive que me submeter a alguns desagrados por causa disso. O senhor Marilice é nas horas livres uma imponente dominatriz. Prefere nessas horas ser chamada de Pandora. Algumas vezes tive que fazer agrados à Pandora. Ser açoitado nas nádegas pela chefe não é pra qualquer um. Diga me, eu sou um bom funcionário, não? O canal é ser um trabalhador multifacetado. Por esse meu dote especial permaneço no cargo, mesmo com meus recordes negativos.

Mas eu sou um cara honesto. Nunca roubei e nunca extorqui ninguém para conseguir dinheiro. Tenho escrúpulos, mesmo com os testículos doendo da última sessão de tortura. Nem muito menos pedi voto a eleitor ignorante com a intenção de passar 4 anos enchendo a patroa de perfume importado e roupas contrabandeadas da Daslu ou comprando terrenos em condomínio fechado no litoral com a intenção de pertencer a uma sociedade elitista. Eu tomo tapinha na bunda sim, mas que mal há nisso? É a vida. A inteligência e a quantidade de malditos que você lê não garante sua conta bancária.

Esses dias em uma jogada de sorte no virtualpoker ganhei uma graninha. Desde então passo os dias ouvindo boa música. Comprei um ipod. Por sugestão do meu melhor amigo, o Curt, um entusiasta da anarquia no mundo fonográfico. E tome sonzera nos fones de ouvidos. Isso durante uma entrega, um copinho de cangebrina, um beckzinho e outro. Só tem coisa boa no playlist. Meus discos do The Clash, Velvet, The Smiths, Pixes, Sonic Youth, Iggy Pop, Frank Zappa, Charlizão Garcia ... todos em mp3. Música, internet e a perda dos direitos autorais.
Curt é um velho amigo ativista radical da contra cultura, mesmo que hoje não haja mais a força contrária propriamente dita. Ele está juntando dinheiro para montar um selo independente. Tem asco da indústria fonográfica. Meu parceiro de infância e de adolescência em meados dos anos 80 e juventude nos anos 90. Chama se Celso Augusto. É músico independente e prefere ser chamado de Curt. Torrou a herança do pai em concertos desastrosos e intervenções artísticas pouco entendidas pela comunidade artística. Hoje vive como eu. Na pindaíba. Trabalha de garçom em um Bingo. Isso segundas, quartas e sextas. Nos outros dias divide se entre a criação musical, shows em casas noturnas exploradoras e atuações em busca de míseros Reais no Parque da Redenção. Filiou-se ao P-Sol. Diz que um artista tem o dever de ser engajado. Tem planos de iniciar um movimento agro-socio-musical que tomará o país. ‘Agro’ porque é engajado, sócio porque vai levar a música boa a todos, sem distinção social, e aos quatro cantos do Brasil. É um visionário. Uma instituição sem fins lucrativos. É quase um messias. Como ele mesmo costuma se autointitular. Ele afirma que um band-leader precisa construir uma história sólida. Não vejo muito nexo nisso, mas não culpo o coitado. Isso tudo foi influência do que ele leu e não soube filtrar. É um ingênuo, mas é meu amigo.
Amigo desde os tempos de guri. Quando o canal era jogar Genius (incrível como o Celso era bom nisso, enquanto eu não passava da terceira seqüência), Atari (que minha avó comprou com muito custo, já o Celso teve um Odyssey), quebra-gelo, pega palito, batalha naval e nunca esquecerei da coleção de Aquaplays do Curt. Ele por sinal sempre fora melhor que eu nos jogos. Daí a minha falta de inteligência. Vai ver vem daí minha baixa auto-estima em relação minha capacidade cognitiva. O Celso, digo, Curt, sempre fora rápido de raciocínio. Memorizava números e letras de música como ninguém. Nas provas sempre me passou as colas. Eu era o aproveitador e ele o inteligente. Era incrível, aprendeu guitarra, contra-baixo, viola de 12 cordas, bateria, entre outros. Tudo sozinho. Acho que essa facilidade deve se as aulas de piano com a tia Berenice do colégio Nossa Senhora das Dores. Era uma boa pessoa. Fumante inveterada. Exalava nicotina. Dentes tão amarelados quanto o amarelo da bandeira nacional. Ela nos fazia pensar. Foi um vetor para todos nós alunos. Daquela classe acho que não vingou muita gente, mas éramos felizes. Em suma, foi a Berenice que despertou o dom musical no Curt. Tenho certeza.
Curt sempre foi mais inteligente que eu. E por incrível que pareça era educado, performático, como a mamãe gostava. Eu pelo contrário era avesso. Odiava as apresentações em público nas festas de dia dos pais, mães, natal, etc. Nem tanto por ter uma relação familiar conflituosa, mas por ser preguiçoso mesmo. Esquecia a fala no teatrinho, mesmo que essa fosse uma simples congratulação ao público. Eu era um zero a esquerda. Já o Curt, era o mimo das professoras, ou das tias como eu chamava e era repreendido. Era o xodó dos coordenadores, o cara tocava piano e cantava sozinho. Era solista todo fim de ano. Papai e mamãe sempre presentes. Já no meu caso era a minha avozinha que fazia papel de pai-mãe. Tadinha, era esforçada, como eu sou e sempre fui. Lições de vida da pobre coitada que juntou o dinheirinho do INAMPS por um ano para comprar me um Atari.
Curt era inteligente competente, mas era ingênuo. Continua inteligente e continua ingênuo. Eu sempre o manipulei. Eu era preguiçoso, burro na matemática, geografia e história, mas era manipulador. Sempre fui.
Tudo de errado que aconteceu ao Curt eu estou envolvido. Desde o primeiro cigarro de maconha, das carteiras de cigarro que eu roubava no supermercado e colocava no bolso dele para sairmos pela porta da frente, até o infortúnio de hoje em dia na vida profissional. Mas ele me ama. Ama me como um irmão. E eu a ele. Eu, filho único de pais ausentes e ele, filho do meio de uma prole de cinco filhos. Lembro me da educação rígida da família do Curt. Os irmãos mais velhos e a irmã mais nova. A Maria Eduarda, a Dudinha. Perdera a virgindade comigo aos 14 anos. Tadinha. Mais um ser a quem eu deflorei com auxilio da minha agilidade com as palavras. Sempre fui sábio quando o assunto era convencer uma mulher a tirar as calcinhas.
Comi a vizinhança inteira. O Curt ia no embalo, mas era um romântico apaixonado. Amores platônicos, cada verão um. E era um punheteiro. Inveterado. Ingênuo.
Coitado, lembro me da Raquel, irmã mais velha de um vizinho nosso. Ela pegou a criança para ensinar a arte do amor. Usou o garoto por alguns meses. Ele querendo assumir o namoro e ela o driblando. Era a mais rodada dos bairros Higienópolis, Iapi, Floresta, etc. Até o Lindóia tinha magrão que já havia sido alegre por um dia. Era conhecida por toda Zona Norte. Era uma morena linda. Mas malvada. Nunca esquecerei a dor que era mentir para meu melhor amigo, que nunca havia comido a mulher da vida dele. Ela era seis anos mais velha que a gente.
A última vez em que ouvi notícias da Raquel, fiquei sabendo que ela havia visitado a casa dos pais, no nosso antigo prédio, após dez anos sem voltar ao Brazil. Ela havia se mudado para Madrid, Espanha, onde trabalhava e ganhava uma boa grana com o seu corpo. Ela morreu por complicações causadas pela síndrome da imunodeficiência humana. E graças a Deus, nós aqui estamos limpos.
Nossa infância foi florida. Nossa infância foi rica. Não necessariamente porque éramos filhos mimados de mães cheias de dinheiro. A Família de Curt era tradicional. O pai, advogado, jurista reconhecido no meio. Autoritário. Casmurro. A mãe, eterna presidente do grupo de mães da escola. Habilidosa rendeira. Expunha suas toalhas de mesa toda feira de sábado na Redenção, na banca de mães. Dona Maria Beatriz. Era carinhosa, preocupada com o futuro de Celso Augusto. E com o meu. Ela era minha imagem de mulher forte e meiga ao mesmo tempo. Mal sabia eu que não era submissa ao marido. Sempre respeitosa na frente de todos. Ao lado do marido era uma dama. Mera fachada. Anos mais tarde, que Deus me perdoe, vim a descobrir o verdadeiro furacão que aquela mulher era. Mulher fatal. Infindáveis momentos de ereção. Um pseudo-incesto.
Tia Ma. Beatriz, tinha perversões. E traia o maridinho todas as tardes. Não importava com quem. Era uma compulsão. Ela era compulsiva. Fiquei sabendo pelas palavras do Seu Antônio, zelador do nosso antigo prédio. Ele era imaginativo. Aquela revelação fora um trampolim para minha perversão. A outrora imaculada dona Maria Beatriz, imagem de mulher correta e respeitadora, imagem de mãe e esposa perfeita, estava desfeita, maculada. Frustrei-me cedo. Desde então respeito cada mulher da maneira que ela merece. Coitado do Celso Augusto, nunca consegui revelar lhe a verdade.
Quando lembro do velho prédio, lembro de Dona M. Beatriz, da Dudinha, da Raquel entre outras aventuras sexuais. Mulheres da minha vida.

Náufrago

Já tentei acreditar nas palavras de Lennon
Palavras sobre a liberdade
Já tentei ignorar tudo aquilo estabelecido
Aquilo que não opinei
Ainda não aceito conviver com o que me trás desgosto,
Muitas coisas me trazem

Sinto-me preso, mas não vejo nada
Não vejo cordas ou qualquer amarra
Não sei explicar o que acontece
O pensamento liberta?
Ou, pelo contrário?
Quanto mais se procura, mais se quer continuar procurando
É uma estrada sem fim
Pelo menos pensando nos sentimos vivos,
a dor faz sentirmo-nos vivos.
Descartes estava certo
Eu existo

Mas não tenho liberdade
Existir por existir é tão complicado
Conheço as normas, conheço bem
Concordo com muitas regras, obedeço.
Não me importo com elas, não me importo em seguí-las
Apesar de em teoria o anarquismo ser atraente
A ausência de coerção não é aplicável
Anomia?
Tão pouco.
Nenhuma teoria social é aplicável
Não existe teoria
Refiro me ao propósito
Ao objetivo
As vezes acredito na violência,
na tolerância zero.
No BOPE.
Consciência coletiva, social, etc ...
é utopia.
Logo após me condeno.


Minha consciência me prega peças.
Puta que me pariu!


Construí uma visão ambígua da vida
Ambição misturada com reflexão altruísta
Simplicidade mais conturbação
Insatisfação é o resultado

Liberdade: complicada
Confundo-me
Material versus corpo
Material motivo de cobiça
Cobiça motivo de frustração
Já tentei entender a história de Sidartha
Altruísmo
Liberdade e desprendimento
Eu não possuo
Eu ambiciono, infelizmente
Não estou alheio à disputa
Não sou uma alma caridosa
Não aceitaria viver na simplicidade extrema
Talvez por isso o vazio é tão presente
Talvez, não tenho certeza.

Porque não se alcança a satisfação
Porque a vida é tão difícil de explicar?
Acho que nem foi projetada pra se entender,
e chega a ser perigoso tentar.
Talvez aí está o porquê da ignorância ser tão segura.

Amo a minha liberdade, mas não sei quem é.
É um romance virtual
Ela existe, mas nunca a vi.
Não sei do que se trata a liberdade.
Esse mar de dúvidas esgota qualquer pobre coitado.
A lei do náufrago é manter se forte e respirando, e com a cabeça a cima da água.
Sigo a lei do náufrago.

02.12.2006