Hilário é meu nome, mas não vejo graça na vida. Ou melhor, ora vejo, ora não vejo. Como fala o punk brega Wildner: Não consigo ser alegre o tempo inteiro. Há demasiada labilidade emocional neste ser que vos fala. A farra parece ter acabado. Já não me circunda tanta gente como outrora. A solidão vai e vem. Uma ciclotimia beira a casuística psquiátrica. Mas continuo firme, sem pensar em entregar os pontos. Solidão é um estado de espírito? Com tanta gente nesse mundão de Deus, como pode haver esse sentimento? Depressão é o rótulo que roubou da melancolia o seu precioso romantismo.
A idade avança, acho que na verdade trata-se de uma crise sazonal ou talvez própria da faixa etária em que me encontro. Mas não tenho certeza, simplesmente prefiro acreditar que sim. Sentado com o laptop queimando minhas coxas, 2 e trinta e cinco da madrugada, poucos amigos online, um que outro corpinho feminino disponível. Arrependo-me do dia em que introduzi a rotina dos métodos de comunicação virtual no meu fim de noite. Foi como um boicote, um suicídio social. Hoje, me encontro em casa, sozinho. Talvez 40 internautas “amigos”, mas nenhum interessado no que se passa, pelo menos com o que se passa comigo. Não me sinto interessante. O que eu falo faz pouco sentido para eles. E esse “eles” na minha cabeça é uma população que interage entre si excluindo-me propositalmente. Será? Criamos fantasias a partir de ilusões persecutórias. É claro que não, pelo menos não todos.
Será depressão? Será falta minha? Melancolia? Meu processo criativo é fomentado por ela. Será porque não cultivei os velhos amigos e hoje não os tenho como consolo? Não sei, talvez sim, talvez não. O que interessa é que toma conta de mim um sentimento tão forte quanto desagradável. Um sentimento indefinível, ipsis litteris. Não sei, vazio. Depressão certamente, mas prefiro não acreditar, prefiro buscar outra explicação, prefiro a melancolia. Taxando como patologia não teria o mesmo glamour da dúvida, Não teria o final em aberto das indagações existenciais. Que náusea, será o café preto que me mantém acordado? Será refluxo gastroesofágico? É um desconforto no epigástrio, vulgo boca do estômago.
Não me considero mais tão interessante como outrora. E não me consideram, mas não consigo admitir isso em voz alta, prefiro acreditar que é passageiro. Não me consideram de fato, ou não me vêem? Minhas roupas andam discretas ultimamente? As pessoas que andavam ao meu redor perderam os seus celulares, não têm mais meu numero e por essa razão não mais me ligam? Seria uma resposta confortável para tamanha ausência. Não acredito que tenham me esquecido. Paira aqui no peito um sufocamento surdo, indolor e ao mesmo tempo sofrido. Dilui-se o que for que seja aqui dentro a cada dia que passa, e os sentimentos bons ficam rarefeitos. Sei que eles não me esqueceram. Ao contrário eu os esqueci, não sei a partir de quando, mas sei que ao longo do tempo. Eu me isolei. O hiperfoco idealista, ou seria a necessidade de aglutinar toda energia para seguir a vida? Não sei, mas perdi a razão que me fazia procurá-los, contraditoriamente, ao mesmo tempo mantive o anseio.
Não sei se posso generalizar isso que sinto, não sei se isso é um caso universal, prefiro acreditar que sim. O contrário me tornaria não humano, e a cada dia que passa percebo o quão humano eu sou e o quão isso é dificil de deglutir. Ponto, não é o escopo deste artigo. Em suma, prefiro acreditar que há validade externa nesse estudo silencioso que faço da minha própria angustia.
Em não conseguir ser alegre o tempo inteiro é que está o foco da minha agitação. Lembro-me quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre. A gente, não sei definir esse grupo de pessoas, mas enfim, não muda o produto em questão. Eu desacreditei aos poucos, até definitivamente cair na sólida certeza. O instante que me separa do futuro, logo, o presente, é duro, cruel, rasga a garganta. É árdua a tarefa de enfrentar esse mundo, encarar a realidade a partir do momento em que se tem a nítida lucidez dos fatos, sabe-se da existência da ambição humana, da original falta de escrúpulos, de todo aquele mal que cogitamos fazer parte da gama de características dos vilões dos nossos filmes de ação. Pois, a realidade é ainda pior. A arte imita a vida, pois a vida é muito mais competente em entregar nos a sua obra inacreditavelmente verdadeira. Sofro com tudo isso, porque penso demais? Sei que tenho companheiros de sofrimento, aos montes, mas isso não me conforta.
Sentado aqui, queimando as pestanas para estabelecer uma linha sã. Preferiria estar alheio a isso tudo. Imagino como deve ser bon ser um alienado, o quão saudável seria a vida. Pois a minha não parece estar encaminhando-se para a plenitude sã, mental e financeira. Sinto-me a cada dia mais biruta, digo, não porque eu ande a favor do vento, mas porque ando pelado-pelado e nu com a mão no bolso. Pelado porque meu espírito é de porco e com as mãos no bolso porque elas não tem o poder de me desvencilhar desse sentimento atordoante de não saber lidar com a vida. Tentei voltar a normalidade e caminhar pelas noites, olhar o rosto de gente notívaga e nelas achar um motivo para voltar a ser quem eu era. Não me encontro mais naqueles rostos. Essa metamorfose deveria ser acompanhada de um livro texto auto-explicativo, munido com um sistema de busca capaz de responder qualquer anseio. Esse tipo de coisa não se acha no Google. Mas não é, não vem manual de uso. E não tem resposta em lugar ou momento algum. É como uma prova sem gabarito. Muda-se ao Leo, sem molde, sem orientação. Mas quando se olha para trás, pronto, comparativamente tudo mudou.
Porque e em que momento a ambição de poder, reconhecimento e dinheiro me consumiu? Hoje sou um invejoso, e digo isso porque o chapéu serviu com exatidão. Explico: Arnaldo Antunes e sua música, O invejoso, saca? Pois se não conhece baixe em algum torrent da sua preferência. A mim caiu como uma luva. Invejo tudo isso. Invejo a criatividade do Arnaldo também.
Esta aí uma coisa que venho trazendo a tona, direto do meu inconsciente. Sou invejoso. Há pessoas ricas, de bem com a vida, cercadas de gente igual a elas. Há gente, montoeiras de gente, desconectadas dessa realidade, ou melhor algumas conectadas virtualmente, em casa, longe de tudo, acompanhando o sucesso alheio pelas páginas da internet, facebook, Orkut, entre outros. Como que compartilhando o sucesso. Ali mora a felicidade daqueles e estes vivem a bisbilhotar, fazendo com que seus sentimentos sejam surrados pela maldita inveja até não sobrar um sequer para encará-la. E esse universo é habitado por milhões de seres humanos. Arrisco me a afirmar que talvez pela imensa maioria de nós.
Não consigo identificar o momento em que passei a considerar as festas em iates regadas a champagne e mulheres espetaculares ao conceito de sucesso. Mas o fato é que hoje, pelo menos até o presente instante isso me ocorre intensamente, a tal ponto que chego a sofrer de inveja através do facebook. Meu nome é Hilário, e repito isso mais para mim do que para vocês. Para mim, porque cheguei na conclusão de que me falta auto sugestão, auto afirmação. Auto-sugestionarei a cada minuto, e a cada segundo seguirei em busca do meu eu, tentando regurgitar esse sentimento de inveja tolo. Pois isso não me pertence. É hilário quando percebo o nível da minha viagem. Enfim, tudo isso se passou pela minha cabeça hilária entre as 2:35 e as 3:03 dessa madrugada de 6 de Junho. Continuo sem as respostas, mas com os questionamentos devidamente registrados, regurgitados com verossimilhança sobre meu teclado.
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