Comentários, críticas ou sugestões: gafn1@hotmail.com

Monday, August 09, 2010

Velho Buk



No fim de semana eu li Bukowski

Duas mulheres significam duas vezes mais encrenca do que uma. Bem, havia me separado recentemente, minha ex-mulher, a doce Joana Herva, agora uma herva daninha, vive a me atazanar e estragar meus momentos de prazer. Quando penso em Herva, lembro minha descendência canina e o quanto isso me aproxima progressivamente de um fim de vida solitário e deprimente.

Envolvera-me com algumas mulheres diferentes. Diferentes encrencas. Uma delas uma relação sórdida, repleta de sexo desprotegido, risco e muito, mas muito desejo. Outras nem tanto, mas todas essas relações basicamente regadas a noites de sexo. Nada de relação estável. Sempre me apresento – Olá, me chamo Hilário (aqui acrescento uma profissão fictícia conforme a conveniência do momento), estou solteiro, bem solteiro e te querendo, no momento.

Nesse fim de semana eu li Bukowski, e sempre me impressiono em como ele fala aquilo que eu sempre quis falar. Eu queria ter sido o velho Buk. Queria ter nascido daquela geração beat. Queria ter vivenciado os áureos tempos da boemia charmosa. Era bonito ser um cão sem dono, copulando ao bel-prazer, bebendo uísques baratos, vodkas com soda e trocando xingamentos, socos e pontapés por diversão em bares mal iluminados simplesmente pelo fato de não aceitar o comodismo da vida pacata.

Um bom vivant que se prezava não amargava término de relações, simplesmente porque não as tinha, ou tinha em dúzias, porém não as encarava como compromisso. Eu gostaria de encarar a separação com a mesma retidão que o detetive Belane. Tratei-a mal. Não valorizei, recebi vezes mais do que doei. Sexo não é tudo. Mulheres precisam de doações cotidianas. Não existe amor, existem provas. Após a decepção amorosa me afundei na vida noturna. Mergulhei nos braços das mais belas, a primeira que eu encontrasse, sempre a procura do suco mais doce. Um bom cachorro vive de aparências, vive de mentiras. A melhor arma de baixar calcinhas é entrar na cabeça delas. E a chave de tudo são as boas mentiras. Junte a isso vodka, energéticos, champagnes caros a la vonté, resultado, muita sacanagem, e elas adoram, pelo menos em um primeiro momento.

No "dia seguinte" sempre me recordo do velho Buk. Aquelas manhãs em que o gosto de guarda-chuva te incomoda, cabeça latejando, bolsas caídas sob os olhos, aparência repugnante. Tu acorda e vai mijar, erra a pontaria e acaba molhando a tampa da privada, olha pela janela e só vê o entardecer e o gato do vizinho cagando no telhado. Volta ao banheiro para escovar os dentes, aperta a bisnaga e a porcaria da pasta erra a escova e suja tua roupa. O velho Buk dizia que nesses momentos se sentia em um ciclo. Comer, beber, transar, coçar, gozar, sorrir e festejar nos feriados. E a vida passando. Termino de escovar os dentes e volto para cama já pensando para quem irei ligar para traçar mais tarde.

Uma reflexão me vem à cabeça. Esse ciclo esta me matando. Sinto-me um tolo, zanzando por aí a sugar ar para dentro e para fora dos pulmões. E que importância tem na vida quem fode com quem? No fim é tão sem graça. Foder, foder, foder. As pessoas se prendem a coisas compulsivamente. Uma vez que cortam o nosso cordão umbilical, a gente se prende a outras coisas. Curtição, som, sexo, sacanagem, jogos, vodka com soda, masturbação, mulheres, ressaca e a depressão de Domingo à noite. Mas ao mesmo tempo, não me vejo hoje outra coisa a não ser um cafajeste. Um homem fanfarrão, um charlatão, que para mim sem a mentira, conquista e sexo abundante é como um detetive de Bukowski sem o seu revolver, seus palavrões e sua sordidez, um relógio sem ponteiro ou um garanhão de camisinha.