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Tuesday, April 12, 2011

Zygmunt Bauman no Froteiras do Pensamento / Porto Alegre



Quinta-feira, 07 de abril: o país se volta ao homem que invadiu uma escola no Rio de Janeiro, matou onze crianças e cometeu suicídio. É possível analisar o fato separadamente, procurando as causas particulares que levaram este homem ao assassinato e, em seguida, ao suicídio. Fatos compreendidos, culpados punidos, fim da história e sensação segura – e líquida.


Novas fronteiras do pensamento se criam perante os tecidos complexos que formam a sociedade do medo, uma sociedade em que, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “qualquer dano provocado pela privação e a indolência, onde quer que aconteça, é acompanhado do insulto da injustiça: o sentimento de que o mal foi feito, um mal que exige ser reparado, mas antes de tudo vingado...”

Leia, abaixo, a visão de Bauman sobre esta sociedade em que medo e violência se interligam de forma a produzir consequências fora de nosso controle e compreensão. O excerto foi retirado da obra Medo Líquido, publicada no Brasil pela editora Zahar.



e a ideia de "sociedade aberta" representava originalmente a autodeterminação de uma sociedade livre, orgulhosa de sua abertura, agora traz à maioria das mentes a experiência terrificante de populações heterônomas e vulneráveis dominadas por forças que não controlam nem realmente compreendem, horrorizadas por sua própria indefensabilidade e obcecadas pela segurança de suas fronteiras e das populações que vivem dentro delas - já que é exatamente essa segurança das fronteiras e dentro delas que foge ao controle e parece destinada a permanecer eternamente fora de alcance (ou pelo menos enquanto o planeta for submetido unicamente à globalização negativa, que frequentemente parece ser o caso).


Em um planeta globalizado, habitado por sociedades forçosamente "abertas", a segurança não pode ser obtida, muito menos garantida de maneira confiável, em um único país ou grupo de países: não por seus meios próprios e não independentemente do estado das coisas no resto do mundo.

Tampouco a justiça, essa condição preliminar para uma paz duradoura. A pervertida "abertura" das sociedades implementada pela globalização negativa é ela própria a causa primeira da injustiça e assim, indiretamente, do conflito e da violência.

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Como adverte a sabedoria antiga: inter arma silent leges (quando as armas falam, as leis silenciam). A globalização dos danos e prejuízos resulta na globalização do ressentimento e da vingança.

A globalização negativa cumpriu sua tarefa, e todas as sociedades são agora plena e verdadeiramente abertas, em termos materiais e intelectuais, de modo que qualquer dano provocado pela privação e a indolência, onde quer que aconteça, é acompanhado do insulto da injustiça: o sentimento de que o mal foi feito, um mal que exige ser reparado, mas antes de tudo vingado... E, no resumo sucinto de Milan Kundera, essa "unidade da humanidade", tal como produzida pela globalização, significa basicamente que "não há um lugar para onde se possa fugir".

Não há abrigos seguros onde alguém possa esconder-se. No mundo líquido-moderno, os perigos e os medos são também de tipo líquido - ou seriam gasosos? Eles flutuam, exsudam, vazam, evaporam... Ainda não se inventaram paredes capazes de detê-los, embora muitos tentem construí-las.

O espectro da vulnerabilidade paira sobre o planeta "negativamente globalizado". Estamos todos em perigo, e todos somos perigosos uns para os outros. Há apenas três papéis a desempenhar - perpetradores, vítimas e "baixas colaterais" - e não há carência de candidatos para o primeiro papel, enquanto as fileiras daqueles destinados ao segundo e ao terceiro crescem interminavelmente.

Aqueles de nós que já se encontram na extremidade receptiva da globalização negativa buscam freneticamente fugir e procurar vingança. Os que até agora foram poupados temem que sua vez de fazer o mesmo possa chegar - e acabe chegando.

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Exasperados pela incapacidade de reduzir o ritmo atordoante da mudança, muito menos predizer ou determinar sua duração, tendemos a nos concentrar nas coisas que podemos, ou acreditamos poder, ou estamos seguros de que podemos, influenciar.

Tentamos calcular e minimizar o risco de cairmos vítimas dos perigos que são mais fáceis de localizar, os mais flexíveis e manejáveis, entre todos os inúmeros e incontáveis perigos que, ao que suspeitamos, o mundo opaco e seu futuro incerto têm em estoque. Ocupamos o tempo buscando "os sete sinais do câncer" ou "os cinco sintomas da depressão", ou ainda exorcizando o espectro da alta pressão sangüínea e do alto nível de colesterol, estresse ou obesidade.

Em outras palavras, procuramos alvos substitutos para descarregar o medo existencial excedente que teve cortado o acesso a seu escoadouro natural, e encontramos alvos paliativos ao tomarmos precauções minuciosas contra a inalação da fumaça do cigarro de outra pessoa, a ingestão de comidas gordurosas ou de bactérias "ruins" (enquanto ingerimos avidamente líquidos que prometem conter as "boas"), a exposição ao sol ou o sexo sem proteção.

Aqueles de nós que podem arcar com isso se fortificam contra perigos visíveis ou invisíveis, atuais ou previstos, conhecidos ou ainda não, dispersos, mas ubíquos, desintoxicando o interior de nossos corpos e lares, trancando-nos atrás de muros, cercando os acessos a nossas residências com câmaras de TV, contratando guardas armados, dirigindo veículos blindados ou tendo aulas de artes marciais.

"O problema", contudo, para relembrar a advertência de David L. Altheide, "é que essas atividades reafirmam e ajudam a produzir o senso de desordem que nossas ações precipitam".

Cada chave extra na porta de entrada em resposta a sucessivos rumores sobre criminosos de aparência estrangeira enrolados em mantos cheios de punhais, ou cada revisão de nossa dieta em resposta a outro "pânico alimentar", faz o mundo parecer mais traiçoeiro e assustador, e instiga mais ações defensivas que acrescentarão ainda mais vigor à capacidade do medo de se autopropagar

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