
De repente eu percebo que a vida não é um progresso constante, mas uma série de avanços e recuos. Não sei ao certo o que esperar dela. Outrora tudo fazia sentido, hoje lentamente vai deixando de fazer e nem mesmo as mais nobres atividades despertam algum apelo. Sou um existencialista nato. O existencialismo, hoje, confunde-se com o drama e o descontentamento. O romantismo não existe mais. O mundo parece dominado por homens e mulheres envernizados, racionais e impenetráveis. O tempo passa rápido e não perdoa quem no ritmo acelerado não o segue. A lentidão do pensamento, da contemplação, da memória e da imaginação não parece ajustar-se ao maquinário do cotidiano contemporâneo. Minha originalidade intimista e principalmente sensorial-existencialista cai progressivamente ostracismo. Minhas trilhas sonoras sessentistas, minhas memórias, onde o amor fazia sentido, e os acontecimentos do cotidiano iluminados, desenrolando-se como se projetados em telas de cinema ou em forma de filmes água-com-açúcar da sessões da tarde; hoje todo esse romantismo parece decadente. Procurar em mim um entendimento ou um glamour diante da estranheza da realidade austera, tornou-se uma atividade onerosa e duradoura. Os anos passam e experiências se empilham. Um amontoado de sorrisos, lágrimas, momentos esquecidos, outros distorcidos e nada hoje me conforta da mesma forma e com a mesma serenidade como aquelas horas de ócio. O quarto, a sala de estar, a TV da era pré assinatura, o pátio e a praça da esquina. Das séries de TV ou de livros sob o sol em dias de outono, alimentava minha alma simplória, e um idealismo crescente, regidos por personagens, roteiros e canções que me instigavam a voltar no outro dia, naquele mesmo horário com um delicioso copo de café com leite açucarado e bem gelado.
Um homem com sentimento de estranheza pela própria natureza, um desajeitado, é o que parece que resta diante da leitura dos acontecimentos passados e do que no presente se apresenta aos meus olhos. No espelho não paro de olhar, sempre procurando encontrar algo que me remeta àquela esperança, aquela sede, aquele guri que amava escondido e horas a fio, passava imaginando como seria estar com a garota mais bonita da escola, a intocada. Eram tempos de sentimentos, sem a injeção viril da testosterona distorcendo a relação homem-mulher. Era só o sentimento pelo sentimento. Pouco de carnal imaginava de fato. Era mais uma emoção alimentada, uma melancolia sem tristeza. Curtia a paixão não correspondida, o amor idealizado, a imaginação a mil, e assim, as tardes se passavam entre as copas das árvores do velho bairro, a brisa musicalmente interagindo com os bem-te-vis, o cheiro de goiaba caída do pé e a companhia do meu velho cão.
O tempo tinha outra dimensão, aquela casa, aquele pátio, aquelas árvores, aqueles telhados. A vizinhança sem grades, a praça repleta de pessoas, o bairro interagindo alheio ao individualismo da cidade.
Em muitas daquelas tardes sentava a ouvir meu avô contar como era a Serra da Mantiqueira, os dias no seminário ... entre outras aventuras. Horas passávamos nos fundos daquela casa. Como em uma rádio-novela. Eu, ele e o cão. Lembro que ficava de boca calada, ouvindo e imaginando; Viajava sentado naquelas cadeiras de praia de madeira e tecido. Vez por outra um pigarro familiar me fazia voltar ao presente, mas logo ele continuava e lá íamos nós ao passado e as suas histórias. Aprendi a gostar de histórias. Orgulhava-me do tio avô falecido na II Grande Guerra. Ele não voltara de lá com os outros pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, mas a família não deixou de ir ao cais do porto recepcioná-lo. Meu avô me fazia ter orgulho da pátria, e dele mesmo, ao descrever o quão perto ficou de ir àqueles campos de batalha. A Guerra acabou antes de ele partir em sua missão. Contava como as crianças do seu tempo cantavam o hino nacional e o da bandeira com orgulho. As aulas de latim, moral & cívica e de etimologia das palavras. Entre um ensinamento e outro, alguma história sempre muito bem tecida e ornamentada. O passado fluindo aos meus ouvidos.
Imaginava como deveriam ser aquelas cidadelas francesas, as casas perfuradas por balas, cenas trágico-pitorescas, tanques de guerra, barricadas e a brava-solidão dos soldados a milhares de quilômetros de casa. O combatente, o perigo, o tempo e a distância. Seus únicos amigos eram seu fuzil, seu cantil ora com água ora com uma bebida alcoólica qualquer, sua pena, o bloco de papel de cartas, o maço de cigarros e a imaginação. Meu avô contava e eu não só imaginava, mas projetava no céu à medida que a tarde dava lugar ao luar. Os sons do bairro sofriam uma metamorfose gradualmente. O cachorro de vez enquanto partia em disparada rumo ao portão de entrada. Ou porque alguém chegava, ou porque o silêncio daquela rua era perturbado chamando sua atenção. Mas logo ele tornava a juntar-se a nós. A duração daquelas tardes não respeitava o determinismo do tempo espacial, e viajávamos léguas, em questão horas, mas como se fosse por uma vida inteira -Tempo e espaço não pertencem a mesma natureza, tanto que podemos afirmar que a consciência (duração interna) e o “tempo espacilizado” se opõem. Esse último é criticado por filósofos como uma das expressões da vertente determinista das ciências e filosofias - Além das histórias, meu avô me expunha a filosofia e algumas teorias, como as Bergsonianas, e assim desafiávamos a duração física daquelas tarde.
O dia seguinte era tão distante e a hora de ir para cama parecia tão tarde. O sono vinha naturalmente, bastava olhar para as estrelas fosforescentes que estampavam o teto. Nem precisava iniciar a contagem e em velocidade de cruzeiro, sob sono profundo, atravessava a noite, até o amanhecer. O corpo não doía ao acordar, pois a noite era revigorante.
Não sei quando deixei de amar o sentido das coisas mais simples e intuir que a felicidade está nessas pequenas passagens de tempo; perceber que manter a mente tranqüila está ligado a nossa habilidade de desafiar a duração das coisas, aceitando a contemplação da vida, saboreando as oportunidades de ouvir histórias, respeitando os sábios por suas cicatrizes talhadas por anos de experiência; cedendo-lhes parte do nosso tempo exíguo de cidadãos modernos; satisfazendo assim seus anseios de compartilhar lembranças e deixando-os alimentar a nossa imaginação. Cabe a mim, redescobrir meu eu romântico, habilidoso-imaginativo; viajando no passado, observando os pássaros, a chuva caindo ou degustando o aroma de terra molhada. Simplicidades revigorantes. São essas situações, para muitos de nós, banais, que podem transformar um homem moderno-vazio, em um homem sensível e universal, capaz de suportar a dureza do dia a dia, sem cair na rotina da pressa, sob o risco do amargor do tempo perdido.
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