Pois é acabaram com a rádio Ipanema, a Ovelha Negra do rádio portoalegrense. O que dizer? Que minha identidade musical é indissociável da história dessa rádio. Minhas lembranças mais remotas constam de eu ouvindo nos velhos e gigantes autofalantes do aparelho de som do meu pai em meados da década de oitenta, músicas que para mim eram o que eu entendia como estética musical. Felizmente não fui apresentado precocemente ao som produzido para minha faixa etária. Não conheci e não se conhecia o termo teen na minha infância. Rádios populares sempre existiram, mas por sorte não me foram apresentadas. Desde pequeno por influência do meu pai e instigado pelas capas imponentes dos seus LPs eu me orientei a desbravar a cultura rock. Dentro deste contexto a rádio ipanema permeia meu imaginário. Suas trilhas e vinhetas são quase como as vinhetas dos clássicos infantis e estão presente nos meus registros mais saudoso, como os fins de tarde ao som do bom e velho rock e da sensação de ser possuidor de um mérito, a apreciação e o respeito pelas mais diferentes formas de consumo da cultura de conteúdo, por contar com aquela rádio no meu convívio diário, o que me enchia de orgulho por ser gaúcho e portoalegrense. A sensação que fica com a sua extinção é quase como o rompimento de um cordão que me ligava a minha identidade portoalegrense, ao ambiente de contracultura, que de certa forma talhava também um sentimento de superioridade já que por essas bandas cultivavamos o rock e negavamos os jabas das gravadoras, fenômenos mercantilistas vazios em conteúdo e celebravamos a cultura, a literatura e o cinema, fugindo do pragmatismo do mercado cultural que dominava o Brasil. Muitos gaúchos, e especialmente portoalegrenses da minha geração talvez se identifiquem com o meu pesar. Novas gerações, novas realidades, esse é o ciclo da vida. Ipanema, 94.9 ... Valeu por tudo, FM.
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