Hoje colocaram uma placa de Área Azul na frente do meu prédio, zona sul do rio de janeiro. Acordei, segui minha rotina diária que consta de um café da manhã e caminhada para o hospital onde trabalho. Ao sair pela portaria do meu prédio, havia um guarda municipal munido de uma caneta esferográfica, rabiscando um papel em frente ao meu automóvel. Costumo estacionar na rua, onde houver vaga no perímetro de casa, pois divido o apartamento e temos somente uma vaga na garagem. Enfim, o Seu Guarda estava me multando.
Conversei com o cidadão da lei e o mesmo foi direto, não havendo chance de evitar a multa. Recebi a orientação de que a partir daquele instante estaria obrigado a pagar um bilhete para ter a permissão de estacionar por 16 horas no local, já que seria gratuito das 23 horas da noite à 7 horas da manhã do dia seguinte, sendo assim, desembolsaria 16 reais por dia para estacionar na rua. Surpreso, indignado, mas sem tempo para discussão, fui para o trabalho e ignorei a situação temporariamente. Ao sair do hospital, me dirigi a secretaria de transporte/ sub-prefeitura da zona sul do Rio de Janeiro, na Gávea. Ao chegar, um senhor de meia idade, negro, sem dentes naturais, pingente de bijuteria dourada pendente a chamar atenção de quem olhasse, travestido com um uniforme de funcionário da prefeitura, guardava a portaria do local. Perguntei onde eu poderia me informar sobre direitos e deveres do cidadão e as normas de funcionamento da Área Azul. Falei javanês. O senhor não falar meu língua. Mantive a calma. Repeti tentando falar o português mais coloquial possível. Não deu jeito.
Perguntei onde era o banheiro e adentrei o prédio.
Logo avistei uma recepcionista, e fui perguntando por informações sobre o que havia me levado até lá. Uma moça, mesmo vendo que eu era o único cidadão presente no recinto naquele momento, pediu para que eu retirasse uma senha e aguardasse sentado pelo atendimento. Sentei e após a primeira meia hora, já com frio devido ao ar condicionado funcionando na função ambiente-gélido, e meio impaciente, levantei, questionando a servidora sobre a demora. A moçoila, provavelmente uma estagiária, com cara de pré-adolescente, assim que levantou o olhar lembrou que eu estava ali e orientou para que eu seguisse ao andar superior.
Lá um corredor e diversas salas. Com cara de guri sem-freio, entrei em uma delas e perguntei com toda humildade por uma informação. Uma senhora, em slow-motion propositalmente desafiador, veio em minha direção e como se fosse surda, ou se fazendo passar por, me fez repetir a pergunta em tons de voz diferentes até que pudesse entender e solicitar que eu aguardasse um instante.
Sentei.
O ambiente era gélido, típica repartição pública de aspones. A mulher seguiu até a sua mesa e por lá ficou uns minutos. Levantei impaciente, questionando se ela poderia resolver meu problema ou no mínimo abreviar minha jornada pela bendita informação sobre como estacionar meu carro na rua da minha casa ou no perímetro dela sem precisar pagar a quantia cobrada pela prefeitura. Eu como cidadão íntegro apostava na existência de um desconto para moradores.
A velha com roupa de jovem e trejeitos de raposa, com toda petulância de um funcionário público que detesta raciocinar, me olhou, gaguejou devido a incerteza daquilo que estava falando e respondeu que eu deveria comparecer em outra subprefeitura, localizada no bairro de botafogo. Já era fim de tarde e quem conhece o Rio de Janeiro, zona sul e seu trânsito neste horário, sabe o caos que seria atravessá-la. Insisti com a surda-penélope-parkinsoniana. A mesma, após uma sequência complexa de palavras sem sentido e completa ausência de objetividade me entregou um formulário. Li o papel:
-- Solicitação do Selo de Morador.
Li por completo, inclusive o verso onde explicava quem tinha direito a esse selo e o que ele proporcionaria ao possuidor. Seria uma forma de ter desconto para estacionar perto de casa. Perdi alguns minutos preenchendo-o e anexado a documentos como certidão de nascimento, contrato de locação do meu imóvel, documento do carro, atestado de bons antecedentes, comprovante de quitação eleitoral, entre outros, entreguei-o a donzela sênior. Ela vestia um micro vestido apertado, magra, mas com sobras de pele, cabelos descoloridos, gengivas pretas e bafo de café preto com cigarro. Mas um jeitinho de gatinha de Copacabana a procura e um perfume tão penetrante quanto nauseante .
O Quadro-da-dor como se diz em Porto Alegre.
Após a entrega do documento de inscrição-para-inicio-do-processo-de-solicitação-de-um-Selo-de-Morador, fui informado que me faltava uma certidão reconhecida em cartório e assinada pelo bispo e carimbada pelo bisneto do Dom Pedro. Burocracia é pouca. Já acostumado com o sistema cordial e agradável de sempre-dificultar a vida do contribuinte, mas praticamente no limite da minha paciência, dirigi-me ao cartório mais próximo. Vou poupá-los da descrição daquele ambiente.
Ao retornar, ofegante, porém esperançoso, me fiz notar mas não houve reação da servidora pública.
Após trinta minutos de espera, a boneca vem com aquela cara de china aposentada em minha direção. Com uma espécie de prazer velado naqueles olhos coloridos por lente azul e alo preto ao redor, ela ainda com um sorriso maroto naquela cara exemplar do que o sol pode fazer com um ser humano que o abusa, me avisa sem sequer tomar de mim a tal certidão.
-- Senhor, não vai dar. Não foi possível ingressar com o processo de solicitação de avaliação pessoal para pedido de posse de selo identificador de habitante da cercania referida pelo senhor, senhor. Vou estar pedindo a gentileza para que o senhor leia com atenção este documento autoexplicativo...
Entregou-me um calhamaço de papel cujo cabeçalho referia ser a “Lista de pré-requisitos para inscrição-para-início-do-processo-de-solicitação-de-um-Selo-de-Morador, referente a isenção de taxa de parquímetro em Área Azul”.
Comecei a ler incrédulo. Páginas de pleonasmos. Fechei os olhos, baixei a cabeça, respirei. Tornei a olhar a leoparda-em-rosa-pink que me olhava penetrante nos olhos.
--Senhor, preciso estar alertando o senhor para facilitar o processo de leitura e poder estar ajudando, o senhor, que a sua checagem de requisitos para solicitação do documento supracitado não confere. O item 32, referente à garagem no prédio, ou seja, o senhor possui um imóvel no qual consta haver vaga para estacionamento, logo, não será possível enquadra-lo em tais requisitos e infelizmente o senhor não goza do direito supracitado.
Não pisquei. Não reclamei. Inspirei o máximo de ar possível e sem demonstrar minha profunda irritação, agradeci.
Voltei pela rua parte do tempo com a cabeça vazia, em estado de exaustão psíquica, outra parte do tempo imaginando como seria dali para frente convencer diariamente o guarda municipal a não me multar. Enfim, o meio atraindo o contribuinte honesto à prática da corrupção cotidiana.
Burocracia não mata, mas corrompe.