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Saturday, September 27, 2014

Somos PhDs em convencer a nós mesmos.

Há dias venho imaginando o que se passa realmente na cabeça de pessoas que lutam pelo poder. Provavelmente está bem longe do que entende uma senhora de 51 anos, funcionária de cozinha hospitalar na região metropolitana do Rio. Uma mulher que vota na situação. Convicta. Imersa na ausência de informação. Ela não se sente propriamente representada. Não gosta da presidenta, mas respeita o homem. 
Esta trabalhadora não entende o que é o poder e as nuances das sequência de mandatos. Não foi agraciada com a habilidade de abstração e de conjecturar o que estaria por vir. Prefere continuar como está. Ela não gosta de política. Só quer mais educação, saúde, segurança ... Mas não há revolta no seu olhar. Parece serena. Conformada com a situação que Deus propôs.

Então, ela vota na situação. Vota na propaganda. Até porque, vê nos demais candidatos a representação do passado em que ela não possuia emprego, em que a renda não era complementada por auxílio do governo e não tinha televisão ou microondas em casa. Ela não lembra mais de URV. Não tem a menor idéia de quem foram André Lara Resende, Gustavo Franco, Pedro Malan  ... Não sabe ao certo quem matou a hiperinflação dos anos 80. Lembra do FHC, mas não gosta dele porque era o "rival do Lula", vendia o que era do brasileiro e não gostava do povo. Ela sabe tanto de Esquema PC e do porquê do primeiro impeachment da América Latina ter ocorrido no Brasil quanto como usar um astrolábio. Ouviu falar que o tal Collor se reelegeu: Mas esse povo é burro! - esbraveja ela.

O Esquema PC movimentou o equivalente a 500 milhões de reais em desvios. Financiou a campanha do Collor e do seu vice, o padrinho do Fusca. PC acabou morto na cama supostamente por sua namorada. Crime passional. Depois de peritos e ministério público lutarem por desconfigurar a definição dada ao crime, o caso foi dado por encerrado em 2011 no STF. Nínguém lembra. Seria exigir demais da nossa amiga.

É digno de nota, ao informar a nossa personagem, sobre o fato de o senhor Collor ser do grupo dos senadores que apoiam o atual governo ... ela neste momento tragicômico faz uma cara estranha entre o "queimou algo aqui na minha cabeça" e "nossa, o angu ta estragado". 

A nossa amiga cozinheira não sabe disso. Ela defende o Luis Inácio e o desvincula com paixão da imagem que a "elite" imputa a ele. Ela mesma confidencia de que não gosta da atual presidenta, mas confia no homem do povo. Não o trairia.



Ela tem poucas lembranças de antes do regime atual. As poucas que tem, não afastam-se do microcosmos dos seus ancestrais pejorativamente conhecidos como bóia-frias .... trabalha-de-dia-para-comer-a-noite. 

Ela seria obrigada a entender o que se passa no topo do poder sem ao menos ter o menor vestígio do que acontece fora da cozinha, do culto ou dos conflitos domiciliares. Delação premiada? Faz me rir. 

Qual é a realidade? Ou vota em uma mulher lá do Acre, amiga do seringueiro aquele que mataram. Trajetória que ela não conhece e não tem o menor interesse em conhecer. Mulher que fala enrolado e tem cara de poucos amigos. Candidata que apesar de ser irmã em cristo, não levanta a bandeira da igreja e não tem o carisma dos irmãos. Pois bem, ou vota na companheira do Gilberto-Gil-divagações-SA ou  vota no neto daquele presidente que morreu de "nó nos intestino". Neto de ex-presidente, vindo de família rica. A conclusão é imediata: "Hômi, esses político só querem é continuar no poder". Aécio não é bom para ela.

Nestes últimos meses eu tentei entender o eleitor que não lia minhas manifestações no Facebook. As minhas e de tantos outros colegas, amigos, jornalistas, etc. Tentei nos últimos tempos interagir e concluir se eu perdia meu tempo com a angustia de tentar evitar o pior. Entendia que como médico , tendo o contato diária com a população, deveria agir. Pensei sobre persuasão. Pensei sobre o voto útil. Pensei sobre minha consciência enferrujando. Refleti sobre a vida fora do país. Refleti sobre o futuro da medicina. Não tenho muitas respostas claras. Cheguei na conclusão de que ou eu viro político ou eu desisto, ligo a televisão no canal de esporte e ignoro tudo isso aí.  Chega-se num ponto tão crítico em que todas as vias estão esgotadas. Abre-se espaço para a revolução, seja ela criativa, política, econômica ou qualquer que seja. Nota mental: não entrar para a política.

A nossa amiga cozinheira ajudou-me a entender aonde estavamos pisando. Não é entregando esquemas de corrupção tão graves, escandalosos  e absurdos quanto o do finado PC Farias. Não é tentando fazê-la entender quem é o doleiro Youssef ou Paulo Robeto Costa, o Paulinho ... e o que foi o esquema montado por membros do governo para corroer os cofres da Petrobras.  Na época do impeachment foram milhões, hoje bilhões. Aperfeiçoamento matemático ininteligível para nossa personagem.

Ela só sabe que o Eduardo Campos dos olhos azuis morreu. O Aécio do Tancredo não a agrada, e a Pessebista da liga da sustentabilidade que não vingou, assusta.

Neste universo adoecido por anos de procriação sem planejamento e educação, de exageros em politicas paliativas. Neste mundo de políticos mofados, onde os partidos aperfeiçoam-se em sinergia para embolsar o que é do povo ... a nossa amiga nunca soube, nem vai saber o que representa dar poder demais ao homem. Ela não entende o reflexo do voto que se encaminha para Domingo dia 05 de Outubro de 2014. O poder está longe, ela não vive como deveria, mas melhor nas mãos de quem lhe deu espaço na propaganda e no programa assistencialista do que no discurso amaldiçoado  dos "outros" políticos. Para ela estão todos no mesmo saco. E não a amolem com essas análises dignas de PhD em ciências políticas. Não a amolem falando em bolivarianismo ou denegrindo o Lula. E vão para cubanacan com essa prolixidade de economia e bilhões de reais desviados. Lula não sabe de nada, não viu e "tá magrinho de tanto o criticarem". A nossa personagem é a cara do Brasil. São eles quem decidem as eleições.

Ou falam a língua deles ou desistam. 

Thursday, September 04, 2014

Tem algo errado aí.



O ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada "estereótipo".

Exemplos: "todo judeu é mesquinho", "todo  palestino é fundamentalista", "todo alemão é prepotente", "todo baiano é vagabundo", "todo carioca é malandro", "Todo  gaúcho é preconceituoso", "todo  pobre é ladrão".

Calma. Tem gente precisando segurar o ímpeto puritano e fazer uma autocrítica, antes de tocar pedra na Geni. Reflita se você não desliza nessas ou quaisquer outras formas de "generalizações superficiais". A menina que ofendeu o goleiro Aranha provavelmente já aprendeu com a humilhação pública desmedida. Foi criticada, sua imagem exposta mundo a fora e rotulada como um ser humano execrável. Teve sua casa apedrejada e familiares ameaçados. Isto é proporcional? Pessoas que defendem o fim do preconceito estão liberadas a sustentar o martírio desta infeliz? É justo o que fizeram com ela? Gostaria de entender o que leva a massa a agir em determinadas situações como um bloco uníssono e raivoso e em outras, ter atitudes tão deselegantes quanto ficar contida e condescendente  frente a barbaridades explícitas. Onde está a lógica?

É claro que devemos levar em consideração o relativismo ao pensar sobre quem sofreria mais com um ato preconceituoso ... se uma criança negra fantasiada de garrafa de Pepsi que vira meme nos whatsapps por aí, uma mulher que tem sua vida invadida após ter seu vídeo íntimo compartilhado pelo Brasil, um estudante de design de família rica chamado de "bixa Phyna", um médico de "coxinha" calhorda, ou um deficiente cujo apelido solene seja "perneta".

Vejo que está na moda sermos todos humanos (tudo junto e com hashtag na frente). Seguindo esta lógica, ainda não entendi como podem sofrimentos gerados por atos de intensidades semelhantes, serem digeridos e condenados pela sociedade de maneiras tão desiguais. Você luta pela igualdade e segue diferenciando ofensas verbais  pela cor ou condição social do infrator? Quem sofre mais? o alemão, o judeu, o palestino, o negro, o gaúcho ou o "perneta"? Até dá para considerar o argumento sobre a dívida do Brasil-branco com a comunidade negra frente ao nosso passado insólito, mas não vi nínguém se manifestar sobre o comentário do goleiro Aranha. Ele afirmou que todo gaúcho é racista em rede nacional. Foi um declaração em legítima defesa?

A guria foi uma criminosa? Foi. Racismo é crime. E a reação dos puritanos? A pobreza de espírito justifica a violência desencadeada? Uma mulher branca, pobre de espírito sabe lá Deus o porquê ... se por ignorância, má educação familiar, se por estar em um dia ruim, infeliz ou simplesmente por não ter o discernimento do ato que iria cometer ... é justo tripudiá-la como se fosse a versão atual de M. Madalena? Na minha opinião essa história de defender somente as minorias já é um preconceito absurdo. Defendam o bem estar comum, mas não ajam como fariseus, estarão milênios defasados. Levantem bandeiras, mas respeitem também. Sentir-se mais humano por proteger um indefeso ou um grupo discriminado não te inocenta de generalizações, não autoriza o desrespeito reacional. Esconder-se atrás da tua bandeira politicamente correta está virando moda. O nome disso é hipocrisia.

A questão aqui são os limites. A questão aqui é impunidade gerando desordem social e emocional. O ser humano não é, nunca foi e nunca será livre de preconceitos. Pessoas educadas aprendem cedo o poder lesivo de suas opiniões mais fantasmagóricas e passam a poupar seus semelhantes de manifestações da sua própria imbecilidade. O mal (não estou falando de crimes hediondos) está dentro de todo ser humano. Mas você não é bem vindo a sociedade se acessá-lo. Portanto controle-se. A evolução social não está na extinção dos possíveis estranhamentos entre grupos ou como está na moda dizer, entre a "maioria" e as "minorias". A evolução passa pela proganda da tolerância, combate à ignorância. A maioria e as minorias lutando pelo que é sadio ao nosso convívio. Passa pelos bons exemplos. Neste contexto ser politicamente correto não é cafona ou atitude reacionária, trata-se do bom senso. ... e eu não me atreveria a chamar isso de hipocrisia. Não sei se as redes sociais refletem a realidade, tomara que não.

Tem algo errado aí, e é mais baixo do que o "macaco" da Patrícia Moreira.

Tuesday, July 29, 2014

Terapia do riso.


Acredito na terapia do riso. Rir é o melhor remédio, definitivamente. Porém, existem momentos em que devemos a nós mesmos, a permissão de estarmos tristes. Há povos que velam seus mortos em ambientes bem humorados, e deixam de lado o luto. Eu particularmente não acredito nisso. E a medicina me ensinou, por sua peculiaridade de contato constante com o fim da vida, que devemos sim, calarmo-nos diante do desconhecido, da separação e da tristeza. 


É sábio, e não é dramático, como muitos acham, saber deixar-se levar pelos sentimentos e pelas reflexões. E é assim, de coração aberto diante das mais inusitadas circunstâncias, que recebemos os sinais aguardados. Assim, nos momentos de silêncio, que criamos perguntas a serem respondidas. As respostas são pessoais e intransferíveis. Cabe ao sujeito interpretá-las. Cabe a você estar atento o suficiente a ponto de degustá-las.

O sujeito de bem com a vida cria perguntas simples. Simples porque aprendeu que a vida é complexa se você a tornar complexa. Você não durará para sempre, nem tão pouco seu apego exacerbado o fará poderoso a ponto de manter pessoas na terra mais tempo que elas precisam ou que seu corpo pode aguentar. O sujeito de mal com a vida, aquele que se debate, que insiste em não saborear a mesma, também vive elaborando suas perguntas. Mas perguntas sem respostas. E é aí que entra a frustração. 

Eu acredito, e assim procuro viver, na teoria das perguntas e respostas. Saber viver sorrindo, saber viver à toa. Estamos todos cientes quanto ao dinamismo da vida, e o quanto isso não nos permite em nenhum momento específico, perpetuarmo-nos, por melhor ou pior que seja o instante. É esse fluxo de possibilidades que nos faz tão complexos, mas ao mesmo tempo torna tudo tão simples. Não existe fisicamente a possibilidade de permanecermos felizes para sempre, assim como não há a possibilidade de seguirmos infelizes para sempre. Exceto aqueles que precisam de ajuda médica para saírem de momentos difíceis, o que não os tornam menos humanos, todos sairemos dos maus momentos. Logo, uma coisa é certa, escrever um tratado sobre a felicidade torna-se, de certa forma, perda de tempo e energia. 

Eu por exemplo, hoje, estou feliz. Dei-me o direito de parar em frente ao computador e ler mensagens que há semanas acumulam-se na minha caixa de e-mail e no meu inbox do Facebook. Pessoas que eu não conheço, compartilhando experiências de vida, parabenizando-me ou simplesmente me dando boa tarde. Chamando-me pelo nome, ou de forma íntima e carinhosa, abreviando o mesmo. Milhares. Desconhecidos. De todos os cantos do país. Religiosos, idosos, jovens postulantes à carreira médica dividindo angustias, mães depositando em mim um orgulho como se delas eu fosse filho, viúvas, homens e mulheres ... É tão bom curtir mensagens positivas. É tão bom dar-se ao luxo de curtir o lado bom do ser humano. E foi para muitas delas, que ao lerem um texto escrito por mim em Abril deste ano, emocionaram-se ... texto que circulou por aí como um viral (um trágico relato de um médico plantonista) ... é para essas pessoas que eu escrevo este texto hoje. 

Pode parecer oportunista. Pode parecer dramático. Mas aqueles que isso pensarem, peço desculpa por ignorá-los. Essas pessoas escreveram-me, permitiram-me compartilhar de sua dor por perder um filho, uma mãe ou um amor. Identificaram em mim uma pessoa a quem podiam confiar sua tristeza e quem sabe até achar uma resposta que as tornassem de volta a felicidade. Identificaram-se na história da menina que perdeu a vida no meu plantão e o descaso que causou tudo aquilo. E sentiram-se representadas simplesmente pelo fato de eu não desistir. Nada mais natural. Essa é a realidade. Assim como eu, muitos colegas também não desistem e se sentem representados. 

Assim somos muitos de nós médicos, falo de médicos porque falo da minha experiência, não quero exaltar o médico gratuitamente ou diminuir a importância de outros profissionais ... e guardadas histórias que comprovem o contrário, pois sempre haverão pessoas desencontradas, foi isso que me fez fazer medicina. Isso não tem preço. Espero, de verdade, que essas pessoas se sintam confortadas e representadas por mim e por muitos amigos que eu sei que também passam por isso no dia a dia. O luto não dura para sempre, é fisicamente impossível. Permitam que a vida os conduza às próximas alegrias.

Um grande abraço e desculpem por não os responder em reservado.

Friday, July 25, 2014

Futebol

Futebol, metanálise.

Qual é a relação curiosa entre a rede Carrefour e o futebol? Bom, vamos começar afirmando que futebol não é algo que possamos usar como paralelo fiel ao desenvolvimento social de um país, haja visto que somos o país com maior número de títulos mundiais. Escrevi algumas vezes sobre a relação entre a seleção brasileira e os índices de aceitação  do governo em vigor. Há, por mais que você relute em aceitar, uma discreta relação diretamente proporcional, e ela é inversamente proporcional ao quociente de desenvolvimento humano da nação em questão. O Brasil sofre com essa tal de desigualdade social, um fator que acentua a relação irracional futebol-realidade social/satisfação política. A desigualdade permite ainda  a existência de fenômenos sociais curiosos: por exemplo, permite que Tom Jobim e Mister Catra dividam espaço como membros da cultura popular ... Possibilita que eleitores capazes de igualar esses dois artistas, exerçam o direito de escolher o melhor para o país ... Eu não defendo o fim da democracia, só estou refletindo.

A desigualdade, como todos podem ver, dá margem para que produtos diametralmente opostos no quesito qualidade, equiparem-se em um mercado completamente dominado pela mídia e o interesse econômico ... (não, não vou iniciar um discurso contra o capitalismo, ou condenar o liberalismo econômico).

Não sou adepto de nenhuma filosofia política específica, credo ou modo de produção. Tenho, porém,  gradativamente perdido o respeito por algumas teorias, baseado na minha observação acerca do caráter e histórico comportamental de alguns de seus líderes. Exemplo: o socialismo, o comunismo, e toda e qualquer forma de radicalismos ... Pessoal, pelo amor de deus, não deram certo no século passado, mesmo assim, alguns jurássicos defensores insistem, outros oportunistas aproveitam, e claro, uma parcela, do bem e passional, prefere continuar acreditando mesmo não conseguindo se fazer entender quando questionada sobre a praticidade da teoria.

Que fique claro, sou praticamente um "Maria vai com as outras".... Apesar de possuir minhas ideologias, eu "fraquejo" e prefiro não me definir como defensor perpétuo de alguma delas. Prefiro ser aquele sujeito que vê tudo de longe, deixa passar a ressaca e se posiciona conforme o que me parecer mais lúcido e coerente. Opinião é algo perigoso. Gera mais inimigos do que amigos e na maioria das vezes é emitida para logo em seguida ser refutada. Quanto mais você aguardar para emitir opiniões,  maior a sua chance de fincar a bandeira em território firme e de fertilidade garantida pela coerência ... de tal forma a impedir que fortes ventos a derrubem.

Quando falo de mídia, quem é a mídia? Bom, resumindo, mídia na minha concepção é o produto de forças aleatórias, de diferentes origens e direções, que ao convergirem geram um vetor resultante, este, acaba por impulsionar as pessoas e ditar suas vidas. O Mercado, a ideologia ou a falta de ... , os interesses, a imprensa, o marketing, a indústria... Todos somados resultam na batata frita mais batata frita de todos os tempos, no gadget mais maneiro de todos os tempos, no artigo de luxo mais imprescindível à sua vida e que você precisa comprar ontem para poder dormir melhor amanhã. O vetor resultante transforma tudo que toca. Deixa tudo mais atraente como um passe de mágica.

Não acredito em teorias da conspiração, e se ela existisse, eu deveria defender existência de uma sala envidraçada com um imenso relógio de ponteiros Hublot na parede, com vista para o rio Hudson, ar condicionado, confortáveis cadeiras giratórias ao redor de uma mesa de pedra do muro das lamentações; dezenas de monitores lcd fullhd 60" ligados em tudo que se passa na Terra. Nesta sala, a comissão de gênios maquiavélicos: a mídia ... detentores do poder de influenciar a humanidade. Estes sujeitos geram as famigeradas forças, que então convergem, gerando por sua vez resultantes que previsivelmente chegam ao efeito e ao resultado que desejam sobre a vida do cidadão comum. Manipulando assim suas escolhas.

Pessoal, isso é piada. Somos nós que atraímos as forças e acatamos o poder da mídia. Mídia essa, que não passa de uma parte do todo. Não existe tal "sala de controle mundial das pessoas". Mas você sim, enxerga, interpreta e consome o que quer, baseado no seu intelecto e consciência; e na habilidade de se desapegar mais ou menos da última. Leva sua vida da forma que desejar, tem as relações sociais e de trabalho baseados naquilo que você planta. Estou errado? Enfim, demos continuidade ao raciocínio.

Onde entra a tal história do Carrefour? E que diabos tem a ver o Carrefour com o futebol? Bem, certa vez na faculdade, um professor tentando explicar o significado no meio científico da palavra "viés", fez uma alusão semelhante a que lhes sugiro agora, e é a partir desta que eu faço a minha  tentativa de explicar como eu vejo o futebol, o que ele significa, e como ele é digerido pelas pessoas.
Olhe você o logotipo da marca Carrefour:


Acredito que muitos de vocês desde a infância acreditou que era a cabeça do mascote da empresa. Aquele logo azul e vermelho. Não é o Marvin, o Marciano? é, não é? Olhe bem. Olhe melhor ... Você não havia percebido, e essa foi a intenção e a genialidade dos criadores. Você sempre pensou que era cabecinha de um boneco, o precursor dos emoticons, mas não passa de uma representação gráfica da letra C. Se isso fez você comprar mais no Carrefour eu não sei, mas que povoa a sua mente e dá status de empresa top of mind  a empresa, isso posso afirmar. É o poder do marketing, o poder da mídia em fazer você enxergar mais do menos.

Futebol é um esporte coletivo, dependente da qualidade técnica e física dos jogadores, da postura em campo. Depende da capacidade, do esforço e da habilidade. Sim. É impossível prever e afirmar a fórmula da vitória. O Brasil foi campeão invicto em 1994, pasmem, com o Dunga de capitão, o Mazinho entre os titulares e o Romário de craque do time. Tchê, onde está a lógica? Falam que falta logística ao futebol brasileiro. Falam que falta tudo no mercado brasileiro de futebol. Falam que futebol é mais que um esporte. Nem parece que futebol acontece em 90 minutos, dentro de 4 linhas, com um time de cada lado, de preferência jogando um contra o outro. Nem parece que galáticos como Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar e cia são meros jogadores de futebol, e por sua vez atletas. Parecem mitos de uma religiosidade meio oculta no coração do homo-sapiens. Mas por favor, são atletas e não é porque parecem mais bonitos na propaganda da Coca ou da Gillette que vão levantar uma Copa do Mundo.

O Romário ganhou a Copa para o Brasil, com a ajuda do Dunga. O Romário não treinava e era indisciplinado. O Dunga nunca passou de um jogador mediano, somente selecionável por ser "bom de grupo". Não havia seleção melhor que aquela? Futebol é imprevisível. Derruba os apaixonados e os opiniáticos. Não depende só de  dinheiro.  Depende de esforço e condições básicas para que a  habilidade aflore, crie-se o espírito esportivo, atinja-se a capacidade pulmonar de correr por 90 minutos chutando a bola e coordenação motora para que ela vá o mais perto de onde o cérebro mandar. Em outras palavras, quem nesses quesitos fizer o melhor ganha.

Na minha visão, tudo que se falou até agora na imprensa sobre a seleção brasileira é baboseira. Filósofos do futebol, por favor, a única função de vocês é preencher o tempo livre do cidadão comum no horário de almoço, no trânsito enquanto enfrentamos um congestionamento, etc. É mimetizar o Pedro Bial, preencher com conteúdo um intervalo de tempo onde ninguém quer gastar energia vital refletindo. Só queremos nos entreter. Ser cronista de futebol é fazer eu passar o tempo em que não quero pensar em política, no trabalho e na criminalidade urbana. É de vocês também a função de criar o maior número de pautas para preencher o meu tempo em que minha mulher não está por perto ou que eu não tenho que estudar, é acirrar a rivalidade entre clubes e assim gerar mais receita ao mercado. Agora por favor, não levem-se vocês mesmos a sério. Vocês estão falando de futebol. Vocês não falam da guerra entre palestinos e israelenses. Falam de futebol e os teus personagens são tão importantes para a humanidade quanto a Luciana Gimenez, o Chay Suade (wtf?!) e a Cláudia Leite. Tá, peguei pesado. Um pouco mais importante. Ok.
Amigos, olhem para o que vocês entendem por futebol. Olhem bem. Olhem melhor ... Agora me digam, vocês vêem muito mais do que um esporte, não? Por favor, me sinto um idiota por fazer parte deste circo, perder tempo amando algo que é esporte, a mídia vende como religião, o cidadão consome como bem de subsistência, é capaz de brigar por ele e/ou perder mais tempo que o necessário; os jornais teimam em  reeditar como Ilíada e Odisséia. E todos teimamos em não enxergar a genialidade  e o poder de transformação que a mídia exerce sobre nós.
Futebol meus amigos, entretenimento elevado a bem de consumo primordial. Olhem melhor que vocês enxergarão. Para finalizar, façam me um favor: amanhã quando me verem comemorando com o meu time histericamente, não me julguem, os velhos casmurros amantes do futebol são assim, Ciclotímicos. Sorte a sua por ser evoluído.

Friday, July 18, 2014

A Copa das Copas.


Apesar da grande reviravolta no quadro político que a derrota de ontem pode representar para o Brasil, e o que tudo isso pode representar nas urnas em Outubro, não consigo estar alegre, vibrante ... como se a copa fosse somente política e a vida não tivesse como tempero a ignorância, ela, a mantenedora da felicidade. Fui duro comigo mesmo. 

Não ignorei a realidade. Ver a possibilidade de por mais absurdo que pareça, uma derrota na copa mudar o destino de um governo, não apaga a ressaca moral do amante do futebol, que mesmo quieto, pouco vibrante, não conseguia secar a distância a seleção. 

Meu lado lúdico e apaixonado me fez acordar hj c um contrangimento meio surdo, meio míope, meio dormente ... 

Mesmo sabendo que futebol no panorama em que nos encontramos não passa de uma droga com alto poder anestésico e com catabólitos estimulantes da confiança popular no governo, fiasco é fiasco. Fiasco no futebol é fiasco no futebol. Fiasco na copa é fiasco na copa ... e eu me senti humilhado, mesmo ignorando e vendo tudo meio na diagonal como se aquilo não fosse comigo, fazendo piadinhas calhordas com os amigos no whatsapp.

Não precisava eu ser tão duro comigo mesmo, ignorar as milhares de horas de narração mental de futebol de meia no parquet da casa da minha avó, driblando o cachorro e fazendo gol na mesa de jantar ... "guilherme passa para pelé, que rola para romário, garrincha corre pela ponta, recebe, faz o corta luz, Paulo Nunes cruza, Jardel desvia, guilherme domina no peito e enche o pé... Tá lá! É do Brasil!!!"... Era eu imaginando a multidão de brasileiros me ovacionando c o gol do título do mundial no Brasil. 
Imaginava assim como muitos outros garotos da minha idade. Sonhei muitas vezes com a copa no brasil. E não foi fácil ignorá la. Não foi fácil ter a sensação de indiferença ao evento e de estranheza com toda a "alegria" que passei a ver a partir de um determinado momento, em que a mídia avassaladora da fifa invadiu o coração dos brasileiros.

Não precisava esse governo, essa presidente e sua patota de bajuladores, comedores de acepipes em salas com
ar condicionado ... oportunistas, marketeiros e especialistas em superfaturamento, desvio e má aplicação do dinheiro público ... Não precisava terem me afastado do romantismo do "meu" futebol. Deixei de ser feliz. Não precisava essa gente retirar de mim o que há de mais bonito no esporte, a fantasia. 
Mexeram no bolso, mexeram na saúde, mexeram na qualidade de vida, não tem como continuar a fantasia, mexeram com o meu intelecto. Impossível esquecer tudo o que eu enxergava de errado.
...

Outra coisa que me dá desanimo é ver certos comentários por aí ... Tá se for piadinha, mesmo que infâme, ok, até vai, damos risadas todos, a ironia ta aí para deixar a coisa toda mais leve... Mas julgar profissionais por ganharem
altos salários e por terem perdido de goleada ... e acreditar nisso, acreditar que esse é o problema ... aí já é demais.

Tá bom, nosso jogadores ganham milhões para jogar futebol. Não jogaram, dançaram na boquinha da garrafa e blábláblá...mas mesmo assim não são menos honrados que os gringos. Milhões também ganham os jogadores da Alemanha e nem por isso deixam de ser respeitados pelo povo de lá. Talvez se perdessem tb não deixariam ... Milhões ganham nossos jogadores e nem por isso deixam de ser brasileiros e menos merecedores de respeito. Nem necessariamente os aproxima de personalidades corruptas fazendo corpo mole. Foram ridículos. Foram. Foi um jogo vexatório. Tá bom. Me assusta essa confusão existencial de muitos dos meus compatriotas.

Tá, Fred e cia foram muito mal, o fred inclusive, não era para estar lá ... O neymar era o único craque de verdade. O tal de Oscar coitado, amarelou. O serelepe e franzino Bernard, tem futebol no pé, mas não é craque. Seleções não são feitas só de craques. Craques não nascem nas margens plácidas do Ipiranga com o grito mágico e perpétuo do D.P I ... Tivemos a sorte de ver alguns craques com a camisa amarela, mas isso não é garantia de eterno monopólio. 

Mitos não são feitos só de talento. Nem todos os craques vivem na mesma era ou são predestinados a pertencer a uma única nação. Desgosta me ver essa nossa mania fatalista de realizar a sublimação da idolatria para o expurgo. Honra não se constrói somente por merecimento. As circunstâncias são determinantes. As circunstâncias neste caso, a superioridade absurda de controle emocional, confiança, eficiência e objetividade típica do jogador alemão. Não acho que não nos honraram. Eles somente não foram capazes de evitar a desgraça futebolistica. 7 a 1, e alemão brincando de bobinho. Não deixaram de ganhar porque não se esforçaram, mas porque não nasceram todos com a genialidade, se abateram com a pressão e ficaram mais perdidos em campo que um cidadão amaurótico em meio a um tiroteio. Os adoradores de chucrute tb não venceram porque são mais evoluídos moralmente que o povo ou o jogador brasileiro. Não interessa neste caso o status da economia alemã ou o nível cultural do povo. Não interessa a desigualdade social brasileira e nossas mazelas. Não foram essas circunstâncias que determinaram o resultado avassalador. Foi só futebol. E futebol é assim. 
Justamente por ser esse fenômeno bizarro e imprevisível que esse esportezinho do capeta se tornou um dos temas que mais mobiliza nações e apaixonados mundo a fora. Dentro e fora de campo. 

Esse mesmo futebol, tb mobiliza máfias, especuladores, aproveitadores, oportunistas... Justamente os que aproveitaram a guarda baixa de uma nação para exaurí la, sugando tudo e o quanto puderam sugar. Não interessa se foi vendendo um ingresso cortesia por 3000 reais ou fazendo acordo com políticos ... ganhando licitações de obras faraônicas. 
A sorte que nos faltou na safra de jogadores de futebol, sobrou nos nesse quesito. Somos campeões mundiais em Maracutaia, top of mind, forever and ever ... nem precisa mais jogar. Mesmo que isso não seja exclusividade do Brasil, é algo que me tira muitas vezes o prazer de ser brasileiro. Nascem craques a cada dia que passa. E especificamente nessa era, nessa década e nessa copa, tinhamos uma seleção de peso. 

Pegaram Pelé, Maradona, Zico, Falcão, Nilton Santos, Platini, Kruyff, Zidane e os fizeram encarnar como políticos, empreiteiro e afins. Foram todos para as bandas do Brasil. E como ganharam dinheiro. Para esses o foco era aumentar o intervalo-não-lúcido do povo, da imprensa e dos formadores de opinião. Só queriam atuar com maestria sem resistência da defesa. E eles nos venceram. Tocaram mais de sete. A cada minuto que passava via um gol desses prodígios. Eles me venceram. Fugi. Me afastei o quanto pude da copa, pois esses indivíduos, sabe se lá quem são eles, incrustrados na nossa sociedade, me impediram de entrar na fantasia. Fui duro comigo mesmo. E ontem olhando pela televisão de um pub novaiorquino, repleto de gringos ao redor vibrando com a derrocada do ex-gigante do futebol, rindo como se um time de moleques estivesse sendo humilhado na praça da vizinhança ... Eu, olhando tudo meio que na diagonal, meio de olhos fechados, desviando o olhar e fazendo como se não fosse comigo ... Pensei, tchê, me ganharam.
Perdi a copa no Brasil, ignorei a copa no Brasil. É melodramático, mas não deixa de ser verdade, além de tudo que já nos fizeram, conseguiram me fazer perder a copa, ignorar a copa. E pode ter certeza que eu a esperei por muitos anos, até perdê la de vista e fazer que aquilo não era comigo. Mas como diz o ditado popular .."o feitiço virando contra o próprio feiticeiro..." Quem sabe o meu oportunismo e o de muitos outros "filosofos do facebook" não contagie muita gente que estava enfeitiçada pelo canto da sereia? Vai que sim? Ontem tinhamos milhões de técnicos, hoje talvez milhões de críticos acordando e pensando no seu futuro. Agora foi. 

Saturday, June 07, 2014

A culpa é das estrelas

"A copa do mundo foi perdida fora de campo." É com essa frase que eu começo uma reflexão. 
O que os críticos, como Fernando Gabera, autor da frase acima, querem dizer ao posicionarem-se contra a Copa? Já percebo em muitos amigos um desconforto em não torcer para nossa seleção de futebol. Porque não? Seria um contrasenso e atitude desvínculada as reinvidicações sociais que povoam a mente de todos nós?
Para muitos não há lógica em refutar um evento tão grandioso e cheio de significados afetivos quanto esse que se aproxima. Eu mesmo estou de certa forma confuso. 
Remeto-me a uma outra reflexão que dias atras passei para a tela do meu computador ... "Com o passar do tempo, menos convicções permanecem. Mais vejo que homens de muitas convicções podem por ventura cometer deslizes semânticos e pecar pela confusão, escorregar, perdendo a razão. Aprendi a diferenciar a mudança de opinião e a readaptação ideológica, da falta de conteúdo e/ou dissimulação.

Outrora desconfiava de sujeitos indecisos, que ao meu ver oscilavam seu ponto de vista, hoje tenho medo daqueles que tudo veem com o olhar da razão. Passei a não reconhecer reavaliações de perspectivas e alterações de rota como ausência de credibilidade. Entendo isso como virtudes. Assim como toda unanimidade é burra, todo convicto é um inocente. Convicções são, porém, necessárias. São a segurança e a confiança para batalhas do cotidiano, mas ao meu ver são interruptas, passíveis de adaptações. Agregamos valores e derrubamos certos dogmas.

Parece-me justo, à luz da minha humilde, porém faminta experiência de vida, que o homem evolui traindo as suas próprias convicções, e por mais paradoxal que pareça, quanto maior a maturidade, maiores os conflitos, em contra partida, maior a tranquilidade perante esses embróglios existenciais. Sua consciência líquida entende as nuances e alterações sócio culturais a sua volta, o que o desembrutece, o torna flexível. Mais fluido seria o seu caráter, e ao mesmo tempo, menos corruptível o indivíduo." 

E com essa filosofia que eu continuo a reflexão... muitos não gostam de filosofia ... mas ao meu ver é ela a quem recorremos quando as respostas estão embrulhadas na boca do estômago. Porque não estar feliz com a copa? 
Ontem a noite fui ao cinema despretenciosamente ver uma adaptação para as telas, de uma obra de John Green, um jovem e aclamado escritor norte americano. Seu estrondoso best seller vem tocando a alma de milhões de jovens adultos mundo a fora. Pois bem, a história de Hazel Grace, uma menina de 16 anos que desde os nove luta contra o câncer de tireóide. Ela tem o pulmão tomado por implantes tumorais. Não há cura, e a partir dessa realidade a menina e sua familia são catapultados a um jornada introspectiva, buscando a aceitação para a morte e reconhecimento de valores primordiais da vida de um ser humano. Filme triste. Não li o livro. Nunca imaginei-me tocado por uma obra ficcional com rótulo de best seller. Já fui um convicto. Nunca li ou dei atenção a best sellers. Sempre me soaram vazios e simplórios. Mas as convicções existem para serem vencidas. Hazel Grace, 16 anos, americana, estágio terminal. Dependente de tubos de oxigênio, médicos, enfermeiras, instituições de saúde. No livro é mostrada a dignidade com que uma cidadã deveria ser tratada no estágio final da vida. Tanta dignidade que não há culpados por aquele mal. A vida flui até o fim amparada pelo carinho de todos ao redor, a tal ponto que é colocada a culpa por tudo nas estrelas.
Interessante, A Culpa é das Estrelas. No mínimo curioso o paralelismo do enredo e do título com a realidade da saúde pública brasileira. Aqui, reflita você, com qual dignidade fluiria os ultimos meses de vida de Hazel Grace? Só de imaginar a fila do sus, o difícil acesso aos hospitais modelos, como o Hospital da Criança Santo Antônio em Porto Alegre, que existem, mas são insuficientes perante a imensa quantidade de carentes por todo país, já me dá falta de ar.
Lá, a culpa é das estrelas. Lá a jovem tem toda a condição de simplesmente viver os últimos momentos, praticar a reflexão e atingir o climax de final de vida com suavidade e dignidade. E aqui? Como seria? A culpa seria de quem? As únicas respostas que eu posso obter é ... a culpa é das Estrelas, se é que me entendem. 
Não torcer para copa para alguns representa lutar contra os descasos do partido da estrela que desastrosamente geriu nossa nação nos últimos 12 anos. É tentar de forma deseperada acordar de um pesadelo. Para muitos isso não faz sentido. A ambiguidade intrínseca do ser humano, nos faz titubear se vale a pena lutar simbólicamente negando o futebol, pão e circo ou se é melhor afogar-se nas glórias e desventuras das estrelas do futebol. Ignorar os crimes das estrelas da política. Festejar de olhos vendados como sempre festejamos o futebol e só voltar a acordar para realidade uma semana após a copa. Ao menos espero que aí sim, em algum momento acordemos. 

Tuesday, June 03, 2014

Filosofia do dia: o convicto.

Amadurecimento do indivíduo, altruísmo não-utópico, flexibilidade, sociedade e bem estar comum.

Com o passar do tempo, menos convicções permanecem. Mais vejo que homens de muitas convicções podem por ventura cometer deslizes semânticos e pecar pela confusão, escorregar, perdendo a razão. Aprendi a diferenciar a mudança de opinião e a readaptação ideológica, da falta de conteúdo e/ou dissimulação.

Outrora desconfiava de sujeitos indecisos, que ao meu ver oscilavam seu ponto de vista, hoje tenho medo daqueles que tudo veem com o olhar da razão. Passei a não reconhecer reavaliações de perspectivas e alterações de rota como ausência de credibilidade. Entendo isso como virtudes. Assim como toda unanimidade é burra, todo convicto é um inocente. Convicções são necessárias. São a segurança e a confiança para batalhas do cotidiano, mas ao meu ver são interruptas, passíveis de adaptações. Agregamos valores e derrubamos certos dogmas.

Parece-me justo, à luz da minha humilde, porém faminta experiência de vida, que o homem evolui traindo as suas próprias convicções, e por mais paradoxal que pareça, quanto maior a maturidade maiores os conflitos, em contra partida maior a tranquilidade perante esses embróglios existenciais. Sua consciência líquida entende as nuances e alterações sócio culturais a sua volta, o que o desembrutece, o torna flexível. Mais fluido seria o seu caráter, e ao mesmo tempo, menos corruptível o indivíduo."

Thursday, April 24, 2014

Gênio da favela?

Comentário de um senhor de 63 anos, negro, primeiro grau incompleto, assalariado, serviços gerais de hospital, morador do Pavão-pavãozinho, aprendeu francês e inglês através de jornais adquiridos de turistas, escuta jazz, bossa nova e leu Aldous Huxley, nunca prestou vestibular e se sente menosprezado com as cotas :

 "Tão querendo transformar favela em quartel militar. Cidadão puxa gato de telefone e televisão a cabo e quem vai fiscalizar não é fiscal da prefeitura, é pm. Vizinho discute com vizinho, não existe juiz de paz, existe pm. Falta a presença efetiva do estado  nas nossas comunidades. Mataram um moleque, dançarino da Globo. Não sei até que ponto esse moleque era ligado ao Pitbull (traficante de alta periculosidade do Pavão-Pavãozinho), não sei em que circunstâncias o fato ocorreu. Mas a comunidade jamais vai aceitar ser tratada como soldado, com truculência e "pede pra sair". Pm insatisfeito com a própria condição passa a ser alguém na hierarquia da favela, moleque insatisfeito com a sua própria condição passa a ser delinquente, outros que outrora tinham condição superior na hierarquia do tráfico continuam por lá, e não me atrevo a dizer que continuam por lá com a conivência do governo, mas pelo menos com omissão, pois ao que me parece a função de UPP não é terminar com o tráfico ou trazer o estado  na integra à favela, mas preparar a cidade aos grandes eventos esportivos. E  assim está feita a guerra. UPPs permanecerão até quando? Imagina depois de final de Agosto de 2016."

Ouvindo esse cidadão, eu, um sujeito que ainda prefere a tolerância zero ao estilo novaiorque-contra-o-crime, em detrimento da passividade alienada da esquerda caviar (direitos humanos), abri um espaço para reflexão. Conheço muitos cidadãos como esse senhor, moradores de comunidades, muitos sem noções de cidadania, infelizmente a maioria de baixa escolaridade e pouca capacidade de entendimento do reflexo de atos ilegais, ou do porquê da presença ostensiva da pm na favela. É um universo bastante complicado e de difícil organização, anos de crescimento irregular e estado paralelo. Definitivamente, não precisa ser um gênio para entender que baixar a porrada não ajusta nada, assim como a martirização de jovens, delinquentes ou inocentes, não nos salva do caos social.
Eu respeito opiniões, principalmente de um provável quociente de inteligência diferenciado como o senhor referido acima. Nem passividade caviar, nem truculência a la Churchill Brocador (direita extremista). Será que há uma fórmula prática e efetiva  entre esses dois pólos e que se aplique a nossa realidade social? Viveremos para ver ou não.

Sunday, April 13, 2014

Futebol, aprendendo cidadania com os orientais.

Assistindo reportagem sobre um jogo de futebol ocorrido em região japonesa devastada por terremoto e tsunami, captei um detalhe que distingue aquele povo do povo latino americano, principalmente de nós brasileiros.
Uma  partida que colocou frente a frente, ex-jogadores japoneses e estrangeiros, ídolos por lá, e crianças entre 6 e 9 anos, futuras promessas esportivas ou simplesmente alunos de escolinhas de futebol, todas elas marcadas pela tragédia do dia 11 de março de 2011, em que milhares de pessoas perderam a vida e outras milhares herdaram terras devastadas e desalento.

Resultado do jogo: vitória dos adultos. Os japoneses sempre nos ensinando como lidam com a vida, sempre demonstrando que o mais importante para eles não é a vitória em sim, mas como o seu povo reage e aprende com a derrota. Neste caso as crianças filhas e vítimas de uma tragédia não foram criadas em função de fantasia de supercapacidade, de injeção de autoestima. Tiveram o contato com os ídolos, doações e o carinho de todos, mas perderam o jogo.
Provavelmente após a partida sem ter consciência de tal fato, essas crianças assimilaram que quem vence na vida é o mais experiente e o mais preparado. Uma gentileza dos mais experiente com essas crianças. Certamente muitos aprenderam o significado da derrota e o significado da experiência, leia-se, preparo, capacitação. Acho muito bonito a forma como povos como esse nos ensinam a lidar com as questões do dia a dia. O esporte é uma plataforma através da qual as crianças aprendem os conceitos de cidadania, podendo a partir de condições básicas de sobrevivência atingir o status de cidadãos no futuro.
O resultado muito além do cunho esportivo é demonstrado na forma como lidam com as dificuldades.
Sou um apaixonado por esporte e acredito assim como os orientais em como ele pode talhar cidadania nas crianças.

Hoje é dia de finais dos campeonatos estaduais pelo Brasil. Grenal, cruzeiro-atlético, vasco-flamengo. Torcidas apaixonadas. Muito bonito, mas um reflexo da imaturidade da nossa sociedade. Vandalismo, ignorância e perda total do espirito esportivo. Atitudes praticadas não só por jovens arruaceiros dentro e fora de estádios. Mas por muitos de nós cidadãos que esquecemos que o futebol é só futebol, independente do tamanho da nossa paixão, e que  segunda-feira é o dia para brigar,  no trabalho, em  família. Brigar, eu digo, superar da forma mais consciente as tragédias e os absurdos socais brasileiros.

Todos nós sabemos que o assistencialismo, um sistema educacional primário deficiente não ensina nossos jovens. Nós absurdamente confundimos as coisas. Por aqui, muitas vezes, se não a maioria, futebol é mais importante que a realidade, vitória é mais importante que a sabedoria, nossas tragédias socais são desculpas para o assistencialismo e o conformismo. São desculpa para extravasamento da insatisfação social, falta de educação, stress e violência.

Em um debate, dizer que futebol não leva a nada, é um argumento vazio. Mas aceitar uma nação que vive o esporte nacional como se fosse mais importante que a própria história e suas próprias mazelas é um absurdo. Questionam-me se a Copa é a culpada por todos os males. Penso que respondi com o meu ponto de vista essa pergunta.
Quando me perguntam se eu acredito que os políticos em geral são os causadores do que hoje  é nossa sociedade, prefiro responder que o problema é mais complexo, está na cultura e educação precária. Nós somos os políticos  e hoje talvez veremos alguns exemplos disso.

Friday, April 11, 2014

Relato de um médico plantonista.


Como muitos sabem, sou médico residente de último ano de Cirurgia Plástica, mas faço plantões extras como cirurgião do trauma. Segue um breve relato do cotidiano de um médico plantonista.


Baixada fluminense, garota de 16 anos, lesão craniana por arma de fogo, com perda de massa encefálica. Atendimento em sala de trauma, via aérea assegurada por intubação orotraqueal, reanimação volêmica. Parada cardiorrespiratório por 3x revertida c massagem cardíaca e drogas vasopressoras. Paciente estabiliza hemodinamicamente. Verifico pupilas dilatadas não reagentes ao estímulo, assim como os demais reflexos tronco encefálicos ausentes. Hospital onde estou não há exames complementares para falência encefálica, não suporta procedimento de retirada de órgãos. Ligo para central de transplantes do estado do Rio de Janeiro. Todos os números possíveis, sem sucesso. Sequer uma gravação. Família em desespero n entendendo a situação, porém demonstrando desejo de doação de órgãos. Sigo tentando contato para iniciar protocolo de captação dos orgãos. 


4h depois do primeiro contato, sim Quatro horas, sou atendido por uma reguladora, felizmente muito solicita. A mesma pede que eu entre em contato com o hospital referência para captação e solicite vaga, pois através da central não teríamos sucesso. Então 3h após o primeiro contato com o tal hospital, após mandar fax e praticamente implorar, tenho vaga negada. 
Pcte evolui com instabilidade hemodinâmica mesmo em bomba de infusão de vasopressores. Nova parada cardíaca. Reanimamos pela 4ª vez, mantemos o coração batendo, estabilidade hemodinâmica. Após 5h consigo leito para transferência, animação da equipe, seria a primeira vez que a equipe do hospital veria um processo de sucesso de captação de órgãos, vencemos o sistema ... acende uma centelha de esperança na equipe. 
Porém, não há no município em questão ambulância equipada para transporte avançado. O tempo corre. Perdemos a vaga. Paciente pára pela 5ª vez. Procedimento de reanimação desta vez sem sucesso. 
Frustração generalizada da equipe.
Converso com familiares, todos inconsoláveis. A falta de tudo. O sistema, a desorganização generalizada da saúde pública, o descaso dos gestores privaram nos do sucesso. Privaram a família de perpetuar a memória da menina, disseminando vida a outros doentes em fila de espera. Uma ambulância. Uma vaga. Um sistema que não te ajuda. Dramático, não? 

Realidade cotidiana. 

Sistema público de saúde colapsado. Estado colapsado. Me bastava uma ambulância igual as da Arena Pantanal, ou do Estádio Itaquerão. Me bastava a vontade de fazer dos hospitais algo tão funcional quanto um estádio da Copa. Uma refinaria no valor de 48 milhões comprada pela Petrobras, estatal, por 1bi. Um bilhão menos quarenta e oito milhões. A diferença igual ao valor roubado dos contribuintes brasileiros. O lucro dos envolvidos igual ao rombo nos cofres públicos. Falta tudo ao povo da baixada fluminense, do agreste, da vila Areia em Porto Alegre. Falta ambulância, falta vaga em hospital. Falta discernimento para compreender o que representa o caso Passadena na vida deles. Sobra discernimento aos políticos em como ludibriar o povo. Vide o pequeno "engano" do Instituto de Pesquisa Econômica Avançada, eclodiram passeatas feministas (com razão) contra o estupro. Pena que a pesquisa estava errada, pena que aparecem fatos como este para abafar os escândalos da Petrobras. Pena que eu vejo esses descasos aos meus pacientes sozinho. Pena que boa parte do eleitorado brasileiro não entende tudo isso.

Neymar, desculpa, mas vou torcer pro Messi. Ronaldo desculpa, mas eu quero hospitais. Dilma, desculpa, mas vou lutar dia a dia para tirar votos do seu governo, no metro, no hospital, no elevador, no facebook.
Chato é não tentar.

Tuesday, March 11, 2014

Não existe mais Antena Parabólica.

Lendo hoje no Jornal uma matéria sobre os 20 anos do Plano real e o caos econômico que foi a década antecedente ao mesmo, lembrei com saudosismo da minha coleção de cédulas, lembrei de cada uma das 7 diferentes moedas que circularam entre 1987-1994. Minha coleção deve estar bem guardada em algum armário na casa do meu pai em Porto Alegre.
Quem tem mais de 30 anos ou tem apreço por história, deve lembrar do Ministro Rubens Ricupero e o "Escândalo da Parabólica". Esse senhor, foi um dos geniais mentores do plano real, há quem diga, mais importante para o sucesso do mesmo que o até hoje reconhecido ex-ministro e ex-presidente FHC. Pois bem, o senhor ministro foi forçado a renunciar ao cargo após o vazamento via satélite de uma conversa informal (fora do ar) minutos antes de uma entrevista que seria concedida a um repórter da rede globo de televisão.

"Eu não tenho escrúpulos. Eu acho que é isso mesmo: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde."

Ficou conhecido por escândalo da parabólica porque a entrevista seria transmitida pelo  Jornal da Globo, e o bate papo informal entre o repórter global e o ministro acabou sendo transmitido "sem querer" ao vivo para quem sintonizava a emissora através de antena parabólica, antes mesmo de entrar no ar em televisão aberta.

Palavras fortes até hoje não esclarecidas pelo ex-ministro. Derrubaram Ricupero, o Sacerdote do Plano Real. Ele então foi nomeado embaixador e "exilado" na Itália. Mas não foi dessa vez que os articulistas petistas (o Partido dos Trabalhadores, e sua fenomenal máquina eleitoral, a oposição ferrenha da época, isso sim podemos denominar OPOSIÇÃO)... conseguiram catapultar o sindicalista Luis Inácio à presidência da república ...Mesmo com o escândalo e as artimanhas petistas FHC acabou eleito meses depois. Era só o início da caminhada de sua oposição. 

Ainda hoje, lendo o mesmo jornal da reportagem sobre os 20 anos do Plano Real, chamou-me a atenção a manchete em que o ex-ministro da casa civil José Dirceu, um dos astros do esquema corrupto conhecido como "Mensalão" afirma não ter regalias na prisão e nega afirmações de que utiliza celular dentro do complexo penitenciário da Papuda. Não duvido que não seja ele o criador dos hilários SMS, que chegam aos celulares dos brasileiros chamando os aleatoriamente de Carlos Lima e mandando os ligar para um 0800 qualquer, tentando atrair incautos a golpes financeiros. Tudo para custesr as fianças dos mensaleiros presos. (tá bom, não sou tão imaginativo assim, é brincadeira. Não creio em teoria da conspiração.)

O presidente Lula até hoje, me ajude ou me critique se eu estiver errado, não apresentou bons argumentos ao ser questionado sobre o escândalo. A história é nebulosa para a maioria dos brasileiros. Lula, nunca foi relacionado ao esquema mensaleiro. Que falta faz uma antena parabólica e Transmissão via satélite. Nem as redes sociais foram capazes de desvendar essa. Que falta faz uma OPOSIÇÃO de verdade.

No mesmo jornal, li a  manchete sobre a teoria da politização da Polícia Federal brasileira e o impedimento da mesma de investigar casos políticos.
Para a infelicidade do brasileiro hoje não se comete mais gafes parabólicas em transmissões ao vivo. Provavelmente nunca estará devidamente explicado o tal Mensalão. Lula até hoje é reverenciado e protegido de qualquer escândalo. Não se fala do Grande líder do proletariado, não se fala do seu milionário filho, não se fala de qualquer indício de corrupção do ex-presidente na mídia.

Lendo um livro recomendado por um amigo, me chamou a atenção uma passagem ... Na Rússia, durante uma homenagem ao grande líder Stálin, os homens da NKVD, polícia secreta soviética (guardadas as proporções, muito próximo do que hoje conhecemos como PF brasileira), enfim, os homens da NKVD, aplaudiam de pé Stalin, assim como todos ao redor. Os agentes observavam o público ao redor. Nínguém sentou, permancendo todos aplaudindo por longos minutos após o fim do discurso com medo de serem taxados opositores e que fossem deflagradas a suas prisões por desacato ao Grande líder.

Nossa Polícia Federal fiscaliza cada samba-canção da Abercrombie que você traz do exterior nos nossos aeroportos, mas não pode investigar políticos e seus assessores. A mídia não dá mais furos de reportagem que mudem os rumos das investigações. Não há mais antenas parabólicas. Não temos mais oposição articulada.

Só me resta torcer para que Dilma ou quem quer que seja desse atual governo tropece no meio do caminho eleitoral. Como um romântico fã do esporte e do futebol, me resta o desgosto de torcer para que a Seleção Brasileira não ofusque o esboço de Manifestações populares dos opositores do atual governo durante a COPA. A televisão aberta, fechada e as parabólicas não vão mostrar, ou melhor, vão mostrar somente a COPA. 

Há quem diga que eu estou exagerando, mas rezo para que nenhum agente secreto do governo, ou a Polícia Federal esteja lendo meu manifesto, pois vou ser um dos primeiros a parar de aplaudir e a sentar ao fim das eleições de Outubro de 2014, caso o governo se perpetue através das urnas.

Wednesday, February 12, 2014

Crônica de hoje: Corporativismo


Hoje cedo intriguei-me com a forma convulsiva com que o telejornal matinal repetia a imagem do delinquente que assassinou um cinegrafista durante manifestação no Rio de Janeiro. Um profissional da imprensa morreu. Tenho percebido a forma repetitiva com que a mídia trata o caso há alguns dias, quase sem dar destaque a qualquer outra informação.  

Corporativismo?

O delinquente suspeito já foi detido, e a imprensa parece querer triturar a matéria até o último resquício de notícia, quase que digerindo a verdade, impulsionando a sociedade a declarar o suspeito culpado de forma catártica. "Nossos repórteres acabam de extrair a confissão do suspeito". E o cidadão realmente parece ser o culpado. Pena que não conseguem fazer o mesmo com o filho do Lula e nunca conseguiram extrair uma confissão do Maluf. Guardadas as proporções, me é evidente o corporativismo. Mas porque diabos quem vos fala tanto repete essa porcaria de corporativismo?
Eu por exemplo, peguei aversão ao caso justamente por identificar o tal corporativismo dos profissionais da imprensa. Fica implícito a lateralidade de quem fala, de tal forma a tornar o caso mais importante do que as outras tantas notícias trágicas, políticas e afins.

Creio que não fui o único a perceber, pois a sociedade inconscientemente rejeita o corporativismo, haja visto os médicos, que há meses atrás incendiaram-se e uniram-se contra o governo/programa de importação de médicos estrangeiros, e boa parte da sociedade cansou-se do discurso dos mesmos. 
Veja, em ambos os casos, o grupo de pessoas que comete o corporativismo defende justamente o seu ofício e o bem comum, suas causas são justas e louváveis, mas deixam de agregar seguidores, e pelo contrário, ganham a antipatia do público.

Os médicos, inflamados contra a barbárie da saúde pública, lutando contra o populismo, contra a corrupção e a incompetência escancarada do governo brasileiro, e os profissionais da imprensa/mídia contra a barbárie de manifestantes que agem acima dos limites aceitos pela sociedade, barbárie que findou na morte do seu colega.
Uma vida se foi agora com o cinegrafista, assim como milhões se vão ao longo dos anos nos hospitais públicos, muitas delas perfeitamente evitáveis com investimentos e valorização dos profissionais da saúde genuinamente brasileiros. 
Valorização essa que reivindicavam os médicos corporativistas.
Eu, médico, filho e enteado de médico. Não recordo quando titubeei em ser um. Sempre me orgulhei do ofício e o defendo acima de tudo. Olhando assim, consigo entender um jornalista defendendo sua classe, e a parcialidade que isso acarreta.

Ainda hoje, ao voltar do hospital caminhando pelas ruas da cidade e refletindo sobre situações do cotidiano, presenciei uma dupla de senhoras, abismadas, resmungando frases de desconforto e reprovação ... "Esses médicos sem vergonha, onde já se viu?! Porcos!" ... E aí eu me deparo com um vendedor de colchões da Ortobom vagando pela calçada com seu jaleco branco lambendo um picolé ao sol. Onde está o erro?

Corporativismo, mídia, formação de opinião pública, tiro saindo pela culatra ... algo deveras delicado de lidar.