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Wednesday, February 12, 2014

Crônica de hoje: Corporativismo


Hoje cedo intriguei-me com a forma convulsiva com que o telejornal matinal repetia a imagem do delinquente que assassinou um cinegrafista durante manifestação no Rio de Janeiro. Um profissional da imprensa morreu. Tenho percebido a forma repetitiva com que a mídia trata o caso há alguns dias, quase sem dar destaque a qualquer outra informação.  

Corporativismo?

O delinquente suspeito já foi detido, e a imprensa parece querer triturar a matéria até o último resquício de notícia, quase que digerindo a verdade, impulsionando a sociedade a declarar o suspeito culpado de forma catártica. "Nossos repórteres acabam de extrair a confissão do suspeito". E o cidadão realmente parece ser o culpado. Pena que não conseguem fazer o mesmo com o filho do Lula e nunca conseguiram extrair uma confissão do Maluf. Guardadas as proporções, me é evidente o corporativismo. Mas porque diabos quem vos fala tanto repete essa porcaria de corporativismo?
Eu por exemplo, peguei aversão ao caso justamente por identificar o tal corporativismo dos profissionais da imprensa. Fica implícito a lateralidade de quem fala, de tal forma a tornar o caso mais importante do que as outras tantas notícias trágicas, políticas e afins.

Creio que não fui o único a perceber, pois a sociedade inconscientemente rejeita o corporativismo, haja visto os médicos, que há meses atrás incendiaram-se e uniram-se contra o governo/programa de importação de médicos estrangeiros, e boa parte da sociedade cansou-se do discurso dos mesmos. 
Veja, em ambos os casos, o grupo de pessoas que comete o corporativismo defende justamente o seu ofício e o bem comum, suas causas são justas e louváveis, mas deixam de agregar seguidores, e pelo contrário, ganham a antipatia do público.

Os médicos, inflamados contra a barbárie da saúde pública, lutando contra o populismo, contra a corrupção e a incompetência escancarada do governo brasileiro, e os profissionais da imprensa/mídia contra a barbárie de manifestantes que agem acima dos limites aceitos pela sociedade, barbárie que findou na morte do seu colega.
Uma vida se foi agora com o cinegrafista, assim como milhões se vão ao longo dos anos nos hospitais públicos, muitas delas perfeitamente evitáveis com investimentos e valorização dos profissionais da saúde genuinamente brasileiros. 
Valorização essa que reivindicavam os médicos corporativistas.
Eu, médico, filho e enteado de médico. Não recordo quando titubeei em ser um. Sempre me orgulhei do ofício e o defendo acima de tudo. Olhando assim, consigo entender um jornalista defendendo sua classe, e a parcialidade que isso acarreta.

Ainda hoje, ao voltar do hospital caminhando pelas ruas da cidade e refletindo sobre situações do cotidiano, presenciei uma dupla de senhoras, abismadas, resmungando frases de desconforto e reprovação ... "Esses médicos sem vergonha, onde já se viu?! Porcos!" ... E aí eu me deparo com um vendedor de colchões da Ortobom vagando pela calçada com seu jaleco branco lambendo um picolé ao sol. Onde está o erro?

Corporativismo, mídia, formação de opinião pública, tiro saindo pela culatra ... algo deveras delicado de lidar.

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