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Friday, July 18, 2014

A Copa das Copas.


Apesar da grande reviravolta no quadro político que a derrota de ontem pode representar para o Brasil, e o que tudo isso pode representar nas urnas em Outubro, não consigo estar alegre, vibrante ... como se a copa fosse somente política e a vida não tivesse como tempero a ignorância, ela, a mantenedora da felicidade. Fui duro comigo mesmo. 

Não ignorei a realidade. Ver a possibilidade de por mais absurdo que pareça, uma derrota na copa mudar o destino de um governo, não apaga a ressaca moral do amante do futebol, que mesmo quieto, pouco vibrante, não conseguia secar a distância a seleção. 

Meu lado lúdico e apaixonado me fez acordar hj c um contrangimento meio surdo, meio míope, meio dormente ... 

Mesmo sabendo que futebol no panorama em que nos encontramos não passa de uma droga com alto poder anestésico e com catabólitos estimulantes da confiança popular no governo, fiasco é fiasco. Fiasco no futebol é fiasco no futebol. Fiasco na copa é fiasco na copa ... e eu me senti humilhado, mesmo ignorando e vendo tudo meio na diagonal como se aquilo não fosse comigo, fazendo piadinhas calhordas com os amigos no whatsapp.

Não precisava eu ser tão duro comigo mesmo, ignorar as milhares de horas de narração mental de futebol de meia no parquet da casa da minha avó, driblando o cachorro e fazendo gol na mesa de jantar ... "guilherme passa para pelé, que rola para romário, garrincha corre pela ponta, recebe, faz o corta luz, Paulo Nunes cruza, Jardel desvia, guilherme domina no peito e enche o pé... Tá lá! É do Brasil!!!"... Era eu imaginando a multidão de brasileiros me ovacionando c o gol do título do mundial no Brasil. 
Imaginava assim como muitos outros garotos da minha idade. Sonhei muitas vezes com a copa no brasil. E não foi fácil ignorá la. Não foi fácil ter a sensação de indiferença ao evento e de estranheza com toda a "alegria" que passei a ver a partir de um determinado momento, em que a mídia avassaladora da fifa invadiu o coração dos brasileiros.

Não precisava esse governo, essa presidente e sua patota de bajuladores, comedores de acepipes em salas com
ar condicionado ... oportunistas, marketeiros e especialistas em superfaturamento, desvio e má aplicação do dinheiro público ... Não precisava terem me afastado do romantismo do "meu" futebol. Deixei de ser feliz. Não precisava essa gente retirar de mim o que há de mais bonito no esporte, a fantasia. 
Mexeram no bolso, mexeram na saúde, mexeram na qualidade de vida, não tem como continuar a fantasia, mexeram com o meu intelecto. Impossível esquecer tudo o que eu enxergava de errado.
...

Outra coisa que me dá desanimo é ver certos comentários por aí ... Tá se for piadinha, mesmo que infâme, ok, até vai, damos risadas todos, a ironia ta aí para deixar a coisa toda mais leve... Mas julgar profissionais por ganharem
altos salários e por terem perdido de goleada ... e acreditar nisso, acreditar que esse é o problema ... aí já é demais.

Tá bom, nosso jogadores ganham milhões para jogar futebol. Não jogaram, dançaram na boquinha da garrafa e blábláblá...mas mesmo assim não são menos honrados que os gringos. Milhões também ganham os jogadores da Alemanha e nem por isso deixam de ser respeitados pelo povo de lá. Talvez se perdessem tb não deixariam ... Milhões ganham nossos jogadores e nem por isso deixam de ser brasileiros e menos merecedores de respeito. Nem necessariamente os aproxima de personalidades corruptas fazendo corpo mole. Foram ridículos. Foram. Foi um jogo vexatório. Tá bom. Me assusta essa confusão existencial de muitos dos meus compatriotas.

Tá, Fred e cia foram muito mal, o fred inclusive, não era para estar lá ... O neymar era o único craque de verdade. O tal de Oscar coitado, amarelou. O serelepe e franzino Bernard, tem futebol no pé, mas não é craque. Seleções não são feitas só de craques. Craques não nascem nas margens plácidas do Ipiranga com o grito mágico e perpétuo do D.P I ... Tivemos a sorte de ver alguns craques com a camisa amarela, mas isso não é garantia de eterno monopólio. 

Mitos não são feitos só de talento. Nem todos os craques vivem na mesma era ou são predestinados a pertencer a uma única nação. Desgosta me ver essa nossa mania fatalista de realizar a sublimação da idolatria para o expurgo. Honra não se constrói somente por merecimento. As circunstâncias são determinantes. As circunstâncias neste caso, a superioridade absurda de controle emocional, confiança, eficiência e objetividade típica do jogador alemão. Não acho que não nos honraram. Eles somente não foram capazes de evitar a desgraça futebolistica. 7 a 1, e alemão brincando de bobinho. Não deixaram de ganhar porque não se esforçaram, mas porque não nasceram todos com a genialidade, se abateram com a pressão e ficaram mais perdidos em campo que um cidadão amaurótico em meio a um tiroteio. Os adoradores de chucrute tb não venceram porque são mais evoluídos moralmente que o povo ou o jogador brasileiro. Não interessa neste caso o status da economia alemã ou o nível cultural do povo. Não interessa a desigualdade social brasileira e nossas mazelas. Não foram essas circunstâncias que determinaram o resultado avassalador. Foi só futebol. E futebol é assim. 
Justamente por ser esse fenômeno bizarro e imprevisível que esse esportezinho do capeta se tornou um dos temas que mais mobiliza nações e apaixonados mundo a fora. Dentro e fora de campo. 

Esse mesmo futebol, tb mobiliza máfias, especuladores, aproveitadores, oportunistas... Justamente os que aproveitaram a guarda baixa de uma nação para exaurí la, sugando tudo e o quanto puderam sugar. Não interessa se foi vendendo um ingresso cortesia por 3000 reais ou fazendo acordo com políticos ... ganhando licitações de obras faraônicas. 
A sorte que nos faltou na safra de jogadores de futebol, sobrou nos nesse quesito. Somos campeões mundiais em Maracutaia, top of mind, forever and ever ... nem precisa mais jogar. Mesmo que isso não seja exclusividade do Brasil, é algo que me tira muitas vezes o prazer de ser brasileiro. Nascem craques a cada dia que passa. E especificamente nessa era, nessa década e nessa copa, tinhamos uma seleção de peso. 

Pegaram Pelé, Maradona, Zico, Falcão, Nilton Santos, Platini, Kruyff, Zidane e os fizeram encarnar como políticos, empreiteiro e afins. Foram todos para as bandas do Brasil. E como ganharam dinheiro. Para esses o foco era aumentar o intervalo-não-lúcido do povo, da imprensa e dos formadores de opinião. Só queriam atuar com maestria sem resistência da defesa. E eles nos venceram. Tocaram mais de sete. A cada minuto que passava via um gol desses prodígios. Eles me venceram. Fugi. Me afastei o quanto pude da copa, pois esses indivíduos, sabe se lá quem são eles, incrustrados na nossa sociedade, me impediram de entrar na fantasia. Fui duro comigo mesmo. E ontem olhando pela televisão de um pub novaiorquino, repleto de gringos ao redor vibrando com a derrocada do ex-gigante do futebol, rindo como se um time de moleques estivesse sendo humilhado na praça da vizinhança ... Eu, olhando tudo meio que na diagonal, meio de olhos fechados, desviando o olhar e fazendo como se não fosse comigo ... Pensei, tchê, me ganharam.
Perdi a copa no Brasil, ignorei a copa no Brasil. É melodramático, mas não deixa de ser verdade, além de tudo que já nos fizeram, conseguiram me fazer perder a copa, ignorar a copa. E pode ter certeza que eu a esperei por muitos anos, até perdê la de vista e fazer que aquilo não era comigo. Mas como diz o ditado popular .."o feitiço virando contra o próprio feiticeiro..." Quem sabe o meu oportunismo e o de muitos outros "filosofos do facebook" não contagie muita gente que estava enfeitiçada pelo canto da sereia? Vai que sim? Ontem tinhamos milhões de técnicos, hoje talvez milhões de críticos acordando e pensando no seu futuro. Agora foi. 

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