Acredito na terapia do riso. Rir é o melhor remédio, definitivamente. Porém, existem momentos em que devemos a nós mesmos, a permissão de estarmos tristes. Há povos que velam seus mortos em ambientes bem humorados, e deixam de lado o luto. Eu particularmente não acredito nisso. E a medicina me ensinou, por sua peculiaridade de contato constante com o fim da vida, que devemos sim, calarmo-nos diante do desconhecido, da separação e da tristeza.
É sábio, e não é dramático, como muitos acham, saber deixar-se levar pelos sentimentos e pelas reflexões. E é assim, de coração aberto diante das mais inusitadas circunstâncias, que recebemos os sinais aguardados. Assim, nos momentos de silêncio, que criamos perguntas a serem respondidas. As respostas são pessoais e intransferíveis. Cabe ao sujeito interpretá-las. Cabe a você estar atento o suficiente a ponto de degustá-las.
O sujeito de bem com a vida cria perguntas simples. Simples porque aprendeu que a vida é complexa se você a tornar complexa. Você não durará para sempre, nem tão pouco seu apego exacerbado o fará poderoso a ponto de manter pessoas na terra mais tempo que elas precisam ou que seu corpo pode aguentar. O sujeito de mal com a vida, aquele que se debate, que insiste em não saborear a mesma, também vive elaborando suas perguntas. Mas perguntas sem respostas. E é aí que entra a frustração.
Eu acredito, e assim procuro viver, na teoria das perguntas e respostas. Saber viver sorrindo, saber viver à toa. Estamos todos cientes quanto ao dinamismo da vida, e o quanto isso não nos permite em nenhum momento específico, perpetuarmo-nos, por melhor ou pior que seja o instante. É esse fluxo de possibilidades que nos faz tão complexos, mas ao mesmo tempo torna tudo tão simples. Não existe fisicamente a possibilidade de permanecermos felizes para sempre, assim como não há a possibilidade de seguirmos infelizes para sempre. Exceto aqueles que precisam de ajuda médica para saírem de momentos difíceis, o que não os tornam menos humanos, todos sairemos dos maus momentos. Logo, uma coisa é certa, escrever um tratado sobre a felicidade torna-se, de certa forma, perda de tempo e energia.
Eu por exemplo, hoje, estou feliz. Dei-me o direito de parar em frente ao computador e ler mensagens que há semanas acumulam-se na minha caixa de e-mail e no meu inbox do Facebook. Pessoas que eu não conheço, compartilhando experiências de vida, parabenizando-me ou simplesmente me dando boa tarde. Chamando-me pelo nome, ou de forma íntima e carinhosa, abreviando o mesmo. Milhares. Desconhecidos. De todos os cantos do país. Religiosos, idosos, jovens postulantes à carreira médica dividindo angustias, mães depositando em mim um orgulho como se delas eu fosse filho, viúvas, homens e mulheres ... É tão bom curtir mensagens positivas. É tão bom dar-se ao luxo de curtir o lado bom do ser humano. E foi para muitas delas, que ao lerem um texto escrito por mim em Abril deste ano, emocionaram-se ... texto que circulou por aí como um viral (um trágico relato de um médico plantonista) ... é para essas pessoas que eu escrevo este texto hoje.
Pode parecer oportunista. Pode parecer dramático. Mas aqueles que isso pensarem, peço desculpa por ignorá-los. Essas pessoas escreveram-me, permitiram-me compartilhar de sua dor por perder um filho, uma mãe ou um amor. Identificaram em mim uma pessoa a quem podiam confiar sua tristeza e quem sabe até achar uma resposta que as tornassem de volta a felicidade. Identificaram-se na história da menina que perdeu a vida no meu plantão e o descaso que causou tudo aquilo. E sentiram-se representadas simplesmente pelo fato de eu não desistir. Nada mais natural. Essa é a realidade. Assim como eu, muitos colegas também não desistem e se sentem representados.
Assim somos muitos de nós médicos, falo de médicos porque falo da minha experiência, não quero exaltar o médico gratuitamente ou diminuir a importância de outros profissionais ... e guardadas histórias que comprovem o contrário, pois sempre haverão pessoas desencontradas, foi isso que me fez fazer medicina. Isso não tem preço. Espero, de verdade, que essas pessoas se sintam confortadas e representadas por mim e por muitos amigos que eu sei que também passam por isso no dia a dia. O luto não dura para sempre, é fisicamente impossível. Permitam que a vida os conduza às próximas alegrias.
Um grande abraço e desculpem por não os responder em reservado.
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