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Saturday, September 27, 2014

Somos PhDs em convencer a nós mesmos.

Há dias venho imaginando o que se passa realmente na cabeça de pessoas que lutam pelo poder. Provavelmente está bem longe do que entende uma senhora de 51 anos, funcionária de cozinha hospitalar na região metropolitana do Rio. Uma mulher que vota na situação. Convicta. Imersa na ausência de informação. Ela não se sente propriamente representada. Não gosta da presidenta, mas respeita o homem. 
Esta trabalhadora não entende o que é o poder e as nuances das sequência de mandatos. Não foi agraciada com a habilidade de abstração e de conjecturar o que estaria por vir. Prefere continuar como está. Ela não gosta de política. Só quer mais educação, saúde, segurança ... Mas não há revolta no seu olhar. Parece serena. Conformada com a situação que Deus propôs.

Então, ela vota na situação. Vota na propaganda. Até porque, vê nos demais candidatos a representação do passado em que ela não possuia emprego, em que a renda não era complementada por auxílio do governo e não tinha televisão ou microondas em casa. Ela não lembra mais de URV. Não tem a menor idéia de quem foram André Lara Resende, Gustavo Franco, Pedro Malan  ... Não sabe ao certo quem matou a hiperinflação dos anos 80. Lembra do FHC, mas não gosta dele porque era o "rival do Lula", vendia o que era do brasileiro e não gostava do povo. Ela sabe tanto de Esquema PC e do porquê do primeiro impeachment da América Latina ter ocorrido no Brasil quanto como usar um astrolábio. Ouviu falar que o tal Collor se reelegeu: Mas esse povo é burro! - esbraveja ela.

O Esquema PC movimentou o equivalente a 500 milhões de reais em desvios. Financiou a campanha do Collor e do seu vice, o padrinho do Fusca. PC acabou morto na cama supostamente por sua namorada. Crime passional. Depois de peritos e ministério público lutarem por desconfigurar a definição dada ao crime, o caso foi dado por encerrado em 2011 no STF. Nínguém lembra. Seria exigir demais da nossa amiga.

É digno de nota, ao informar a nossa personagem, sobre o fato de o senhor Collor ser do grupo dos senadores que apoiam o atual governo ... ela neste momento tragicômico faz uma cara estranha entre o "queimou algo aqui na minha cabeça" e "nossa, o angu ta estragado". 

A nossa amiga cozinheira não sabe disso. Ela defende o Luis Inácio e o desvincula com paixão da imagem que a "elite" imputa a ele. Ela mesma confidencia de que não gosta da atual presidenta, mas confia no homem do povo. Não o trairia.



Ela tem poucas lembranças de antes do regime atual. As poucas que tem, não afastam-se do microcosmos dos seus ancestrais pejorativamente conhecidos como bóia-frias .... trabalha-de-dia-para-comer-a-noite. 

Ela seria obrigada a entender o que se passa no topo do poder sem ao menos ter o menor vestígio do que acontece fora da cozinha, do culto ou dos conflitos domiciliares. Delação premiada? Faz me rir. 

Qual é a realidade? Ou vota em uma mulher lá do Acre, amiga do seringueiro aquele que mataram. Trajetória que ela não conhece e não tem o menor interesse em conhecer. Mulher que fala enrolado e tem cara de poucos amigos. Candidata que apesar de ser irmã em cristo, não levanta a bandeira da igreja e não tem o carisma dos irmãos. Pois bem, ou vota na companheira do Gilberto-Gil-divagações-SA ou  vota no neto daquele presidente que morreu de "nó nos intestino". Neto de ex-presidente, vindo de família rica. A conclusão é imediata: "Hômi, esses político só querem é continuar no poder". Aécio não é bom para ela.

Nestes últimos meses eu tentei entender o eleitor que não lia minhas manifestações no Facebook. As minhas e de tantos outros colegas, amigos, jornalistas, etc. Tentei nos últimos tempos interagir e concluir se eu perdia meu tempo com a angustia de tentar evitar o pior. Entendia que como médico , tendo o contato diária com a população, deveria agir. Pensei sobre persuasão. Pensei sobre o voto útil. Pensei sobre minha consciência enferrujando. Refleti sobre a vida fora do país. Refleti sobre o futuro da medicina. Não tenho muitas respostas claras. Cheguei na conclusão de que ou eu viro político ou eu desisto, ligo a televisão no canal de esporte e ignoro tudo isso aí.  Chega-se num ponto tão crítico em que todas as vias estão esgotadas. Abre-se espaço para a revolução, seja ela criativa, política, econômica ou qualquer que seja. Nota mental: não entrar para a política.

A nossa amiga cozinheira ajudou-me a entender aonde estavamos pisando. Não é entregando esquemas de corrupção tão graves, escandalosos  e absurdos quanto o do finado PC Farias. Não é tentando fazê-la entender quem é o doleiro Youssef ou Paulo Robeto Costa, o Paulinho ... e o que foi o esquema montado por membros do governo para corroer os cofres da Petrobras.  Na época do impeachment foram milhões, hoje bilhões. Aperfeiçoamento matemático ininteligível para nossa personagem.

Ela só sabe que o Eduardo Campos dos olhos azuis morreu. O Aécio do Tancredo não a agrada, e a Pessebista da liga da sustentabilidade que não vingou, assusta.

Neste universo adoecido por anos de procriação sem planejamento e educação, de exageros em politicas paliativas. Neste mundo de políticos mofados, onde os partidos aperfeiçoam-se em sinergia para embolsar o que é do povo ... a nossa amiga nunca soube, nem vai saber o que representa dar poder demais ao homem. Ela não entende o reflexo do voto que se encaminha para Domingo dia 05 de Outubro de 2014. O poder está longe, ela não vive como deveria, mas melhor nas mãos de quem lhe deu espaço na propaganda e no programa assistencialista do que no discurso amaldiçoado  dos "outros" políticos. Para ela estão todos no mesmo saco. E não a amolem com essas análises dignas de PhD em ciências políticas. Não a amolem falando em bolivarianismo ou denegrindo o Lula. E vão para cubanacan com essa prolixidade de economia e bilhões de reais desviados. Lula não sabe de nada, não viu e "tá magrinho de tanto o criticarem". A nossa personagem é a cara do Brasil. São eles quem decidem as eleições.

Ou falam a língua deles ou desistam. 

Thursday, September 04, 2014

Tem algo errado aí.



O ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada "estereótipo".

Exemplos: "todo judeu é mesquinho", "todo  palestino é fundamentalista", "todo alemão é prepotente", "todo baiano é vagabundo", "todo carioca é malandro", "Todo  gaúcho é preconceituoso", "todo  pobre é ladrão".

Calma. Tem gente precisando segurar o ímpeto puritano e fazer uma autocrítica, antes de tocar pedra na Geni. Reflita se você não desliza nessas ou quaisquer outras formas de "generalizações superficiais". A menina que ofendeu o goleiro Aranha provavelmente já aprendeu com a humilhação pública desmedida. Foi criticada, sua imagem exposta mundo a fora e rotulada como um ser humano execrável. Teve sua casa apedrejada e familiares ameaçados. Isto é proporcional? Pessoas que defendem o fim do preconceito estão liberadas a sustentar o martírio desta infeliz? É justo o que fizeram com ela? Gostaria de entender o que leva a massa a agir em determinadas situações como um bloco uníssono e raivoso e em outras, ter atitudes tão deselegantes quanto ficar contida e condescendente  frente a barbaridades explícitas. Onde está a lógica?

É claro que devemos levar em consideração o relativismo ao pensar sobre quem sofreria mais com um ato preconceituoso ... se uma criança negra fantasiada de garrafa de Pepsi que vira meme nos whatsapps por aí, uma mulher que tem sua vida invadida após ter seu vídeo íntimo compartilhado pelo Brasil, um estudante de design de família rica chamado de "bixa Phyna", um médico de "coxinha" calhorda, ou um deficiente cujo apelido solene seja "perneta".

Vejo que está na moda sermos todos humanos (tudo junto e com hashtag na frente). Seguindo esta lógica, ainda não entendi como podem sofrimentos gerados por atos de intensidades semelhantes, serem digeridos e condenados pela sociedade de maneiras tão desiguais. Você luta pela igualdade e segue diferenciando ofensas verbais  pela cor ou condição social do infrator? Quem sofre mais? o alemão, o judeu, o palestino, o negro, o gaúcho ou o "perneta"? Até dá para considerar o argumento sobre a dívida do Brasil-branco com a comunidade negra frente ao nosso passado insólito, mas não vi nínguém se manifestar sobre o comentário do goleiro Aranha. Ele afirmou que todo gaúcho é racista em rede nacional. Foi um declaração em legítima defesa?

A guria foi uma criminosa? Foi. Racismo é crime. E a reação dos puritanos? A pobreza de espírito justifica a violência desencadeada? Uma mulher branca, pobre de espírito sabe lá Deus o porquê ... se por ignorância, má educação familiar, se por estar em um dia ruim, infeliz ou simplesmente por não ter o discernimento do ato que iria cometer ... é justo tripudiá-la como se fosse a versão atual de M. Madalena? Na minha opinião essa história de defender somente as minorias já é um preconceito absurdo. Defendam o bem estar comum, mas não ajam como fariseus, estarão milênios defasados. Levantem bandeiras, mas respeitem também. Sentir-se mais humano por proteger um indefeso ou um grupo discriminado não te inocenta de generalizações, não autoriza o desrespeito reacional. Esconder-se atrás da tua bandeira politicamente correta está virando moda. O nome disso é hipocrisia.

A questão aqui são os limites. A questão aqui é impunidade gerando desordem social e emocional. O ser humano não é, nunca foi e nunca será livre de preconceitos. Pessoas educadas aprendem cedo o poder lesivo de suas opiniões mais fantasmagóricas e passam a poupar seus semelhantes de manifestações da sua própria imbecilidade. O mal (não estou falando de crimes hediondos) está dentro de todo ser humano. Mas você não é bem vindo a sociedade se acessá-lo. Portanto controle-se. A evolução social não está na extinção dos possíveis estranhamentos entre grupos ou como está na moda dizer, entre a "maioria" e as "minorias". A evolução passa pela proganda da tolerância, combate à ignorância. A maioria e as minorias lutando pelo que é sadio ao nosso convívio. Passa pelos bons exemplos. Neste contexto ser politicamente correto não é cafona ou atitude reacionária, trata-se do bom senso. ... e eu não me atreveria a chamar isso de hipocrisia. Não sei se as redes sociais refletem a realidade, tomara que não.

Tem algo errado aí, e é mais baixo do que o "macaco" da Patrícia Moreira.